TRANSSIGNO E TRANSSIGNOBRAS

O primeiro é um signo semiótico com status transsubjetivo. O segundo ganha o status de brasileiro, pela sua irredutibilidade a outras culturas. Operam a trans-subjetividade pela perspectiva do objeto, na Semiótica de Peirce.

Todo quali, sin e legsigno é potencialmente transsigno ou signobras, caso satisfaça os critérios propostos.

De modo geral, todo acontecimento apresenta dimensões trans-subjetivas. Na perspectiva semiótica da comunicação, o argumento a reflete.

Igualmente na perspectiva de realização, determinados ícones, como por exemplo, a bandeira dos EUA.

O mesmo acontece com índices, fartamente habituados, trovão e relâmpago. E símbolos, quando hábitos cognitivos, como a percepção da tridimensionalidade etc.

Na perspectiva do objeto, o qualisigno é trans-subjetivo. Por exemplo, a cor vermelha, a escuridão etc. Em contrapartida, o legsigno e menos.

Como citamos, genericamente, a trans-subjetividade implica em uma perspectiva de observação determinada, em status correspondente. No caso da bandeira americana implica, geralmente, na perspectiva semiótica do objeto, como sinsigno.

O fato de ser a bandeira dos EUA apresenta habituação, longevidade, disseminação geográfica-espacial e irredutibilidade a outras culturas. Todavia, como sinsigno é icone. Caso sua verbalização comunicativa seja um argumento aproxima-se da trans-subjetividade.

Sob determinadas condições, a prática de confeccionar uma bandeira aproxima-se deste status. No caso, o status do objeto estende-se a atividade poiética de confeccioná-lo.

O ato (re)construtivo é ação que transcende o horizonte individual para garantir verificabilidade, controle e capacidade de aceitação. Assim, o objeto reconstruído é aceito, sem reservas, como bandeira americana.

Desse modo, Transsignos são aqueles que em toda perspectiva e status semióticos intensificam a trans-subjetividade. Isto acontece pelo fato de ser habituado longa e intensamente na população.

Na medida em que a quantidade, intensidade ou função de transsignos tornam-se determinantes, o acontecimento ganha maior objetividade.

A disposição da dimensão trans-subjetiva brasileira implica na definição implícita do observador correspondente. E a apresentação organizada, para definir o âmbito de validade.

Dessa maneira, a DTB indica o brasileiro e ele a indica, simultaneamente, pela sua perspectiva de observação.

Descreveremos esta observação. O senso-comum é um modo de observação. Pela perspectiva do objeto é quali ou sinsigno. Na realização é ícone ou índice kinestético.

Na comunicação phemas e rhemas que referem-se a quali ou sinsignos, ou atividades indiciais que cumprem os critérios da trans-subjetividade.

A identificação, disposição e realização de elementos trans-subjetivos é a tentativa de aproximação de tais status semióticos, sob os critérios propostos. Igualmente, a trans-subjetividade é relativa ao seu status, previamente determinado.

Vamos examinar um exemplo: A Moça Dançando o Frevo.

A “moça” é mais trans-subjetiva que o fato de estar dançando. Este, por sua vez, é mais forte que o fato da dança ser o frevo. Isto atesta a falta de pré-determinação, no senso comum, sobre o status da trans-subjetividade.

Varia, com a situação. Nesse caso, seu status genérico perde a abrangência, uma vez que poucas pessoas conhecem a dança do frevo, fora dos limites do país.

Em formulação morfológica, a trans-subjetividade consiste na consideração de dimensões morfológicas, ressaltadas pelo interesse, e determinadas como diretoras no acontecimento. Por sua vez, as dimensões preenchem, satisfatoriamente, os critérios propostos. Tais considerações constituem a estilização da prática da trans-subjetividade no senso-comum.

Uma comida típica aproxima-se de outras, análogas, em países ou Estados diversos. Todavia, apresenta um grupo de signos diferenciadores, a aparência, disposição de condimentos, sabor etc.

O mesmo observa-se na arquitetura. Os elementos diferenciadores da arquitetura de Alhambra, na Espanha, com uma série de signos que a torna total ou parcialmente irredutível a outras culturas, mesmo ibéricas ou árabes.

Podem ter origem e histórico diversos. Todavia, intervém com intensidade caracterizante. Podem ser quali, sin ou legsigno. Interessa-nos, aqui, seu aspecto diretamente acessível, como quali ou sinsigno.

Em princípio, aceita-se que grande quantidade de qualisignos, formando ou não um sinsigno, possibilitam abduções, em sentido de um tipo correspondente. Mínimas diferenças nos quali e sinsignos decidem.

No caso, a irredutibilidade mostra-se na comparação com possíveis tipos, na abdução. É, pois, um caso clássico de pensamento abdutivo.

Os elementos diferenciadores podem ser estudados e descritos pelas disciplinas correspondentes, em todos os âmbitos, morfológico, orgânico, celular, molecular ou atômico. Isto sugere a possibilidade de modelos micro e macroscópicos abrangentes.

Descreveremos agora o Transsignobras. Consideremos que a realidade transsubjetiva, além de elementos intersubjetivos da história cultura do país, interferem, produzindo diferenças na cognição de sua população.

Mais além, qualisignos diversos têm intervenção eferente e são levemente modificados adaptativamente, pela prática desta cognição diferenciada.

Inicialmente, tais hábitos cognitivos são habituados pela lógica específica, formada no país, como diferenciação da mesma logica aplicada em outros.

Esta cognição, levemente diferenciada, é descrita pelo modelo de interferências, em analogia ao timbre específico do instrumento musical. Por exemplo, a clarineta de fabricação francesa soa diferente das alemãs.

Assim, estabelece-se a dinâmica de causa-efeito circulares que produz diferenciações no modo especifico da subjetividade, na população do país.

Como sabemos, Peter Janich define a cultura como algo que abrange toda atividade humana. Atividades manuais e artesanais são produtos culturais, do mesmo modo que livros ou pinturas.

Mais além, tudo que seja influenciado por ela, incluindo efeitos no meio ambiente. Por exemplo, manejos de plantas ou do solo, desenvolvidos e praticados na Agricultura Biodinâmica (Sixel, 2003) são atividades “culturais” (kultürlich). Em contrapartida, o crescimento das plantas é “natural”.

Nesse sentido, um exemplo contundente de “culturalismo” foi apresentado por C. Nüsslein-Volhard, prêmio Nobel de Medicina, em 1995. A pesquisadora afirma que o cultivo de plantas iniciou-se há onze mil anos na Ásia. O trigo, com o qual fazemos o pão de cada dia, foi modificado geneticamente.

Não mais corresponde aos seus ancestrais “naturais” (V. DLG – Revista da Sociedade Alemã de Agricultura, Junho, 2009). No Brasil, temos o exemplo da mandioca, transformada pelos índios para tornar-se comestível.

Orientando-se por este conceito de cultura, poder-se-ia dizer que signos interpretados como “naturais” contém camadas “culturais”, indicadoras de práticas.

A práxis humana necessita orientar-se e funcionar no Lebenswelt, de acordo com objetivos. A cultura é o resultado desta prática, canonizada e divulgada por tradições, hábitos, instituições etc. Dessa maneira, quando contemplamos a “Natureza”, interagimos com considerável quantidade de signos culturalistas, advindos de práticas habituadas.

Repetem, indicam e habituam o círculo de causa-efeito que caracteriza a cognição, lógica e DTR do país. Em tais casos, seria importante definir a proporção de elementos culturalistas e naturalistas.

Aparentemente o comportamento habituado tem mais familiaridade com processos culturais aplicados em acontecimentos naturais. Nosso conceito de “Natureza” refere-se, frequentemente, a esta dimensão de acontecimentos naturais.

Isto segue o pressuposto de poder incentivar ou desenvolver processos naturais através da poiéticaos. Na Agricultura Biodinâmica encontramos bons exemplos, nos processos para “vivificar a terra”e “enobrecer” plantas.

A grande quantidade de signos culturalistas, contrabandeados em pseudo signos naturalistas, presentes na “Natureza” do país, caracteriza o Transsigno.

Dessa maneira, como qualisigno genérico, é ponto de partida para a DTR. São manifestações preliminares de Transsignosbras sem que tenhamos de recorrer a reconstrução histórico-antropológica do país.

O aspecto particular deste Signobras é o fato de ser abstrato. Em determinada perspectiva aparece como legsigno. Todavia, apresenta-se diretamente como quasisigno, uma vez que os dois signos, aproximam-se progressivamente.

Apenas com massiva interferência ganham status menos abstratos. Por exemplo, modos de pronunciar palavras de línguas diversas, os chamados sotaques, comidas típicas, formas arquitetônicas etc. Por conta disto, dispomos duas categorias orientativas:

1 – A presença de “Transignosbras”, em modo abstrato, melhor definido como Legsignobras. Por exemplo, a disposição de plantas no jardim.

2 – A concentração e interferência massiva de tais signos, caracterizando o acontecimento trans-subjetivo. Isto sugere a hipótese de que sob determinadas condições, a concentração habituada de legsinos os transformam em trans-subjetivos. Por exemplo, uma canção típica da Bossa-Nova, ações, verbalizações e cognições típicas (Aí, como sinsigno avessados, identificamos qualisignos).

As duas categorias mostram-se presentes na DTB. Todavia, o senso-comum necessita de grande quantidade, concentração e interferência diretora no acontecimento para aceitá-las como trans-subjetivas.

Em resumo:

1 – A ecologia e antropologia condicionam diferenças nos modos cognitivos filogenéticos.

2 – A percepção e o ato de perceber interferem reciprocamente. Adaptam-se e indicam-se reciprocamente, em processo circular de causa-efeito.

3 – Isto possibilita o desenvolvimento de quasi ou legsignos, especificamente comprometidos com uma cultura, no caso a brasileira.

Invariavelmente, aparecem como dimensão culturalista pré-trans-subjetiva.

A concentração e intensificação de tais elementos é o método para reconhecimento ou produção sistemática de signos brasileiros e acontecimentos correspondentes.

Edson de Melo (atualização - texto - agostos de 2011)