LÓGICA

Bertrand Russel

De modo geral, a lógica é a ciência das leis e formas do pensar. Pode ser vista como tradução cognitiva do vir-a-ser dos processos da Natureza. Sob ponto de vista idealista é hierarquicamente anterior ou superior.

Pode ser caracterizada como processo compositor de orientação e previsão. Sistema orientativo de valor pragmático. Pelo seu aspecto explicativo, sugere a possibilidade de repetir fenômenos deliberadamente. Normalmente, toma o tempo como dado implícito, transcendental e a realidade como dada. Considerando o conhecido, advinha o desconhecido.

Como o pensar é o meio e linguagem do conhecimento, tornou-se necessário sistematizar normativamente seu uso. Foram desenvolvidas regras prescritivas para distinguir argumentos e inferências válidas.

Igualmente, investiga a validade da estrutura de reflexões e argumentos, abstraídos de seu conteúdo (Lógica Formal). Genericamente, um sistema lógico é o conjunto de axiomas e regras de inferência que visam representar formalmente o raciocínio válido.

Os primeiros sistemas conhecidos originaram-se na Índia, China e na Grécia, a partir do Século IV a. C. Na ĺndia, por exemplo, a Escola Nyâyam desenvolveu um silogismo de cinco elementos: A proposição (a mata está queimando), a razão ou causa (pois, pode-se ver a fumaça), um exemplo (onde há fumaça há fogo, como na cozinha), uma aplicação (desse modo, a mata está fumaçando) e, finalmente, a conclusão (consequentemente, a mata está queimando).

 

A LÓGICA NO OCIDENTE

A história da Lógica, no Ocidente, inicia com a dialética de Sócrates. É organizada e desenvolvida sob o impulso de Aristóteles.

Contudo, os Eleatas e Sofistas já teciam conclusões e comprovações,metodicamente.

Inicialmente, no Topik, Aristóteles viu a Lógica como meio de influenciar o ouvinte. Era parte de sua Retórica. (Tradicionalmente, a Lógica é uma das disciplinas filosóficas, componente da tríade clássica, junto à Gramática e a Retórica.

Kant

Na Antiguidade e na Idade Média, a Lógica ocupava-se com a qualidade da argumentação. Isto registra-se em Platão e Aristóteles, por exemplo. Mais tarde, tornou-se disciplina relacionada ao emprego de regras genéricas de inferência, até transformar-se em “ciência de juízos (Kant, Frege).

Uma visão mais radical a considera ciência transcendental, espelhando, genericamente, estados e relações dos fatos (F. Brentano, A. Reinach).

Ainda outra visão, a toma como manipulação de símbolos, de acordo com regras pré-estabelecidas. Ou como instrumento que feiçoa a realidade.

Esta perspectiva pode ganhar validade com o desenvolvimento da Teoria Quântica, esclarecendo o papel do observador na composição da realidade.

Aristóteles a concebe como processo verificativo que mostra o caminho da verdade, pressupondo o pensar sem contradições como correto. Iniciou investigando juízos modais, nos quais registra-se a possibilidade da existência ou falta de indícios em objetos.

Teofrasto

Eudemos e Teofrasto desenvolveram as doutrinas aristotélicas da dedução e da modalidade de juízos. Descobriram os chamados juízos hipotéticos e disjuntivos.

Na idade-média, o problema das universálias centraliza as investigações. Francis Bacon desenvolve, no início do século XVII, interessante sistema indutivo, onde a disposição de fenômenos procura possibilitar a conscientização do conceito geral que os envolve. Trata-se de processo aferente como ferramenta para descobertas científicas, contrapondo-se ao Organon de Aristóteles, uma ferramenta para comprovação ou refutação (V. Bacon, Novum Organon Scientarium).

Leibniz estende a lógica a todo processo comprovatório formal. Desenvolve a possibilidade de compor corroborações autosuficientes, uma vez que toda regra lógica pode ser demonstrada por números.

Hume estuda princípios e operações pensamentais, além das propriedades das representações.

Kant a toma como ciência das leis da compreensão e da razão. É a ciência das regras da cognição, propriamente dita. Mostra e investiga como devemos pensar. Distingue a “lógica pura”, genérica ou transcendental, da “aplicada” Caso não referencie-se ao ser, ou elementos fora de sua linguagem simbólica, é “pura“. Em outro caso é “aplicada”.

Hegel

Hegel vê igualmente a Lógica como ciência basilar. Sistema de pensamentos isentos de sensualidade. As leis da verdade em si. Todavia, não aceita que as leis da lógica formal sejam vistas como método genérico de conhecimento, por serem leis do saber derivado, não registrado em todo conhecimento.

J. S. Mill desenvolveu sistema de verificação de relações entre fenômenos, principalmente pelo acompanhamento de suas semelhanças, diferenças e interdependências (V. A System of Logic). Aí, a Lógica é a ciência das operações cognitivas racionais que servem como critério da evidência. Todavia, necessita considerar condições psicológicas do pensar.

No século XIX intensiva-se esta questão, na relação entre Psicologia e Lógica. Surge o “Psicologismo forte,” o “Psicologismo fraco” e o “Anti-psicologismo”. Boole desenvolveu o primeiro sistema de lógica matemática.

Em meados do século XIX passou a ser estudada também como uma disciplina matemática. Mais recentemente, tornou-se parte integrante da Informática, depois desenvolvido por Peirce, McColl, Jevons, Schröder e Porezki, entre outros.

Frege

Frege desenvolveu a linguagem formalizada, capaz de expressar e processar as relações do pensar. Assim, possibilita o manejo seguro e efetivo do pensar instrumentalizado, através de linguagem lógica artificial na qual todas as relevantes formas de declarações podem ser formuladas com clareza (Na chamada “Lógica Formal” estuda-se as leis do saber derivado da junção de verdades ganhas e verificadas anteriormente, sem necessidade de recorrer a experiência. As leis são derivadas a priori. Isto implica no ideal de conceitos universais, capazes de intervenção descritiva e prescritiva no mundo percebido).

Contudo, Popper, sob o choque provocado pela Teoria da Relatividade e por descobertas que abalaram as mais seguras deduções e induções, desconfia da capacidade da consciência em ganhar conceitos genéricos e seguros, pelo seu aferente rechaçamento, mesmo em experimentos. Desse modo, desvia a atenção do processo verificante para o refutante. Surge o Falsificacionismo. Popper não tem o propósito de fundamentar ou assegurar o conhecimento. Quer cuidar de seu progresso.

Nos tempos modernos desenvolveram-se infinidade de disciplinas, modos de apresentação, fundamentação etc. A partir disto, a Lógica tornou-se tecnologia compositora de orientação e previsão, principalmente no âmbito da realidade operacional. Tenta informar sobre o que acontecerá ou explica porque algo veio a acontecer.

Dessa maneira, pelo seu aspecto explicativo, pode sugerir a possibilidade de repetir, provocar ou antever fenômenos determinados, embora sem certeza absoluta. Tem, assim, uma camada de possibilidades interferentes. Caso seja processamento de estruturas inerentes (deduções ou induções), toma o tempo e o espaço com dados implícitos e transcendentais. Partindo do presente, tenta prever o futuro ou identificar o elemento gerador no passado. Focaliza o vir-a-ser, mesmo processando o ser.

A composição de sua força positivista, mesmo pretendendo ser disciplina analítica-a priorística, acontece pela hibridação de seus elementos explicativos, interferentes e previsivos. Mais além, por suas pretensões auto-evidentes. Dessa maneira, pode ser visto como sistema orientativo de valor pragmático. Tem frequentemente a feição de diagrama para o processamento de dados.

Como todo fenômeno, pode ser processado morfologicamente, para Peirce, por exemplo, a Lógica pode ter diferentes objetivos relativos. Não tem de ser compromissada unicamente com a verdade definitiva.

 

A LÓGICA DE ARISTÓTELES

Aristóteles via a Lógica como fundamento da Ciência. Registra a presença de objetos no horizonte cognitivo. E compõe seu estruturamento com silogismos. Como pressupõe estruturas básicas, no sentido de Witzenmann, como transcendentes, parte forçosamente de premissas.

Sua generalidade, como idéia geral, permite a dedução de casos particulares que serão referenciados a outros. Isto forma a CONCLUSÃO. Dessa maneira, sua lógica tem caráter de protocolo de relações entre estruturas dadas. Os silogismos, associados às induções, constituem fórmulas de reflexibilidade e intersubjetividade.

A dedução é processo conclusivo. Tem como ponto de partida o material perceptivo predisposto pela decomposição de suas definições anteriores. Isto, cristaliza-se como sentido da realidade. Em sua primeira fase, relaciona dois elementos, sob o conceito de PERTINÊNCIA. A seguinte consiste na decomposição analítica, indicando os conceitos componentes. A terceira é a doação de elemento conceitual (retrodeterminação) dos conceitos componentes dos dois conceitos iniciais.

Dessa maneira, tem o efeito de redemoinho, fazendo fluir a essencialidade de um dos conceitos gerais ao outro. Partindo de declarações genéricas, as conclusões são invariavelmente corretas. Por sua abrangência e confirmação repetida, sugere o absolutismo cognitivo, tornando-se evidente.

A dedução é viável pela redução epistemológica, sob a qual o holismo e simultaneidade de determinação e retrodeterminação dos conceitos são cancelados, pela abstração de seus elementos possibilitantes. Nesse sentido, o silogismo é potenciação da pertinência de um conceito ao outro, garantida pela abstração de sua retrodeterminação.

Nota-se no ethos desta lógica dependência e passividade, como qualidades advindas da visão da realidade como objetos dados à percepção. Assim, caso isolemos um conceito componente de outro mais genérico e identifiquemos suas individualizações tornadas in erentes, temos uma dedução.

A lógica de Aristóteles é um diagrama de composição de realidade, aplicável genericamente.

 

INDUÇÃO e DEDUÇÃO

São diagramas cognitivos abrangentes e ordenadores, capazes de processar inventários de experiências. Partindo do conhecido demonstra-se o desconhecido. Mais além, determinam leis e regras, através das quais cobre-se os elementos aferentes com o matiz particular e predeterminado de sua eferência.

Moldam a realidade com o cunho feiçoado de antemão, sem a necessidade de interação.

A INDUÇÃO é processo ampliativo, para a generalização de conhecimentos. Parte de um caso e um resultado, concluindo a regra. Tem a OBSERVAÇÃO como ponto de partida. A partir dela são formuladas regras genéricas.

Assim, é processo formador de idéias genéricas, a partir da abstração de conceitos determinados. Transcorre pela constatação de semelhanças em grupo de dados.

Esta constatação efetiva-se pelo hábito (Peirce). Projetando a presença de elementos semelhantes em estrutura representada, a COMPROVAÇÃO é efetuada pela identidade de representação e da individualização do elemento conceitual, quando da presença do material aferente correspondente. Nesse sentido, é composição de “idéias”, enquanto a dedução intenciona e fomenta intersubjetividade.

Semelhanças são percebidas pela presença de conceito, individualizado em diferentes objetos ou acontecimentos, com variações mínimas. Trata-se do equilíbrio particular entre continuidade e descontinuidade. Por exemplo, a mesma cor em duas casas, todavia com matiz de tonalidade levemente diferente. Caso o fenômeno verifique-se repetidamente, sem variações, tem-se a “identidade”.

A partir de J. S. Mill, em 1893, o nome indução foi dado a toda conclusão não-dedutiva, um agregado de diferentes métodos para o descobrimento de relações causais.

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