Johan Huizinga

Em seu famoso livro, Nederland´s Beschaving in de Zeventiende Eeuw (A Cultura Holandesa do Seculo XVII), Johan Huizinga (1872-1945) descreve, apaixonadamente, a Holanda do século XVII.

Em sua visão, um aglomerado, sem centro, sob a prática pluralista da liberdade, compreendida como grupo diverso de liberdades. E sinônimo de um conjunto de regras, de validade regional. Huizinga denomina esta forma social “particularismo”.

Neste contexto, a arte, principalmente a pintura, era uma extensão de práticas artesanais. Pois, os limites entre o erudito e o popular mostravam-se difusos, como as fronteiras das regiões. Até mesmo Constantijn Huygens, um dos grandes clássicos da literatura holandesa, leva-nos, em seu “Hofwijk,” ao povo mais simples.

Tudo denuncia o constante olhar sobre a vida cotidiana. Próximo e satisfeito, expresso na palavra “gezellig” (agradável), utilizada com frequência, no dia a dia. Verbaliza a relação harmônica com o mundo.

Simplicidade, equilíbrio, sobriedade e limpeza, tornaram-se virtudes típicas, junto ao relativo desinteresse por pensamentos profundos, idéias transcendentais, complicadas ou sublimes.

Por outro lado, a intensa alegria de viver, sem exagerado psicologismo ou existencialismo

O milagre econômico, com a consequente riqueza, nunca modificou este modo de vida plenamente. Os holandeses continuaram estimando as coisas simples.

Vondel

Segundo Huizinga, a falta de angústias existenciais caracteriza a literatura de Vondel. Em van Hals, encontram-se quase que exclusivamente representações de pessoas sadias, fortes.

Jan Veth, em Beelden en Groepen (1919, p. 103) vê este caráter expresso intensamente nos quadros de Jan Vermeer. Gostava de pintar mulheres simples. Em sua imaginação, mais belas, altas, fortes e sadias. Invariavelmente estão compenetradas em atividades cotidianas.

Escrevem, derramam leite em uma taça, esperam o navio no porto. A vida transparece em uma aura de clareza, denunciando o realismo desta cultura. É intensificada pelo olhar do artista que sabe desvendar e apreciar.

O ethos da pintura de Vermeer é a harmonia com a realidade tornada bela e segura pela racionalidade do trabalho eficiente e competente. Sua obra é uma inspiração para transposições biônicas. A transfiguração da realidade, pela exata fantasia conceitual, sugere a tecnologia imaginativa e transformativa.

A falta de teoria organizadora, ou deduções, a partir de princípios estilísticos, a ingênua e dedicada atividade artesanal, que caracterizava o particular “laisser aller” desta arte, é um elemento valioso. Van Eyck expressa este paradigma nas palavras: “Pinto como sei” (“als ic can” ou “als ik kan”, em linguagem mais moderna). Nota-se o paralelo à MPB.

Nesse aspecto, é bastante elucidativo observar o ethos de pintores impressionistas, como Monet. Seu mundo interior, ao contemplar as flores do jardim, ganha preponderância. Isto resume-se nas palavras: “Não pinto o jardim, mas minhas impressões”. Indica a dualidade do ethos da MPB. De um lado o realismo imaginativo, aos modos de van Eyck e Vermeer. Do outro, o subjetivismo franco-existencialista-romântico.

Bredero

Nesse sentido, segundo Huizinga, mesmo a poesia da época permanecia visual. Os dramas alegres de Bredero, ou tristes de Vondel, são pinturas.

Em seu brilhante livro sobre Goethe, Kurt Hildebrandt relata como a pintura holandesa impressionou e interveio na formação do primeiro. Nela, impressionava a integração de realismo e fantasia conceitual artística (V. Hildebrandt, p. 37). Distingue-se pela acurada e clara percepção da calma beleza da vida, como ela é (V H.A.L. Fisher, Geschiedenis van Europa, Vol. III, p. 106 e segs.). Mais tarde, Goethe desenvolveria este pensamento morfológico particular, (anschauende Urteilskraft), como possibilidade cognitiva, inclusive de aplicação científica.

Este fato, junto à influência que teve B. Spinoza no Sturm und Drang, permite formular a hipótese de ser a cultura holandesa germinal. Todavia, por poiésis precedente à estilização, falta-lhe a abundância de “cultura” filosófica, como encontra-se em outros países. É como se imaginássemos consequências do Sturm und Drang sem os excessos de neoplatonismo, metafísica, absolutismo e idealismo que lhes são inerentes (V. Korff, 1930, p. 23 e segs). Isto sugere um outro paradigma, alternativo aos modos do Sturm und Drang, partindo da realidade da cultura holandesa.

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A relação entre a Holanda e o chamado goethanismo é homóloga aquela entre Milton Nascimento e o Tropicalismo. Os primeiros são realizações de projetos e intenções dos seguintes. Assim, frequentemente, a pintura holandesa mostra esta ligação e aplicação de modos cognitivos que denotam conceitos em estado de intencionalidade, pré-individualização, em âmbito de transição á metamorfose, ao mesmo tempo com um matiz que denota clara sensualização (44). Assim, propomos tomá-la como hipótese operacional dos modos cognitivos dos holandeses. Como citamos, a tradição clássico-romântica alemã é a estilização da poiésis, denunciada pela pintura holandesa.

Esta aproximação tem importância pelo fato dela derivar-se do ethos de um povo e clara identificação da AD, ao nível simbólico.

Outro aspecto importante é sua filosofia liberal. Obrou um impulso otimista, tolerante e progressista. Claras expressões de forças emergentes que viam as guerras religiosas como perda de tempo, vidas e recursos. Segundo Russell (1945), nota-se a influência dos liberalistas holandeses e ingleses nos EUA, a partir de 1776 e no otimismo do século XIX.

A resistência holandesa, contra o domínio espanhol, na guerra da independência, é o movimento predecessor do liberalismo. Após a vitória, surge uma ordem sócio-política original. As Sete Províncias Unidas formam um Estado radicalmente descentralizado. O “particularismo” de Huizinga.

A cidadania rege as cidades. Estas regem as províncias. E as últimas o Estado. Não havia interesse em combater heresias, novas idéias ou desenvolver pensamentos metafísicos. Era tempo de estabilizar a paz, a liberdade. E crescer economicamente. Formou-se um Estado religiosamente tolerante, com liberdade de imprensa. “Produziu seu milagre econômico.” E tornou-se a nação mais liberal do mundo.

Este ethos foi formulado politicamente por Thorbecke (V. Bijdrage tot de herziening der Grondwet (1848) e J. Drentje: Thorbecke: een filosoof in de politiek) e, posteriormente por John Locke (V. “Two Treatises on Government” e “A Letter Concerning Toleration”, 1689).

Impulsiona a democracia, sugerindo a estética da livre iniciativa e da industrialização. Renega oligarquias e aristocracias. Funda o tipo civilizatório que muito permite.

Vermeer

Vendo os holandeses pelo processo compositor, seu comportamento mostra constante derivação nos limites de uma previsão pragmaticamente disposta pela redução implícita em seus modos cognitivos. Isto aparece em seu fenótipo e comportamento. Ganha significação específica, ao ser comparado aos nossos modos cognitivos. Explica o modo específico de sua psique.

O realismo ganho pela moderada universalização, permite flexibilidade e liberdade criativa. Todavia, mantém claro e vigoroso elemento orientativo de reindividualização que permite aplicação e efetividade. A específica qualidade desta exata fantasia conceitual artística dá sentido e explica o ethos, sendo ele a bem sucedida realização da cultura goetheanística sonhada, talvez impedida pelos excessos de metafísica, neo platonismo, absolutismo e romantismo.

Isto nos sugere, por exemplo, possibilidades de desenvolvimento do Tropicalismo, sobre o influxo do caráter mais diretamente realizativo e menos teórico da obra de Milton Nascimento.

A Holanda é, pois, um exemplo particular de realização dos princípios civilizatórios do ocidente. Mesmo sem reformá-la, chegaram a uma estrutura sócio cultural que provê seu povo de valores que podem ser vistos como algo do melhor da civilização ocidental.

Vendo-os, ouvindo a sua língua, tem-se a impressão de saber como a vida deveria ser. A falta de morbidez, seu frescor e juventude, onde até mesmo as pessoas idosas parecem prenhes de juventude e confiança no futuro, compõe um modelo de valores que não se pode desperdiçar. Tais elementos intervêm como um matiz eferente, constante e onipresente que transforma a significação de cada acontecimento. Cristaliza-se em um intento, postado nos confins do pré-simbólico.

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A solidariedade parece intervir no ethos, como AD. Assim, na sociedade holandesa, encontramos diversos exemplos de esquemas de transformação, aplicados a partir deste elemento. Observando por dimensões apropriadas, registra-se certa semelhança entre os holandeses e brasileiros.

A diferença fundamental é o maior equilíbrio e intervenção de elementos pragmáticos que conferem aos primeiros a interessante mistura de juventude e maturidade que não possuímos.

Resumimos o ethos holandês como “simultaneidade de juventude e maturidade”. Este elemento, isolado como ícone semiótico, aplicado como atividade diretora, acrescenta ao ethos brasileiro elementos equilibrantes e desenvolventes.

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