Paul Feyerabend

Para Heródoto tudo é um agregado. Assim, são caracterizados deuses, homens, tribos, a Natureza etc. Não recorre ao “Wesen” ou “Substância”.

O saber entre os sumérios, babilônicos, assírios e gregos antigos consistia na habilidade de dispor a listagem de elementos característicos.

Os trágicos, particularmente Sófocles e Eurípedes, procuravam mostrar como a vida é cheia de conflitos. Nos poemas épicos as qualidades eram ilustradas através de histórias nas quais transpareciam sua natureza e limitações. A participação nas ações era importante.

Homero

Os deuses de Homero eram dotados de qualidades humanas, viviam entre os homens, interferindo em suas vidas.

A cosmologia grega baseava-se na quantidade e diversidade de experiências. Pois, diante da complexidade do mundo o saber total era visto como inacessível. Assim, buscava-se grande sabedoria.

Os sofistas teciam listas, histórias, paradigmas, para mostrar a riqueza e diversidade da vida. Formavam seus conceitos de modo que fossem expressão direta da realidade.

Democrito e Protágoras

Protágoras sentia-se civilizado pelo fato de sua aldeia não ser o centro do mundo. Considerava a infinidade de valores e tradições. Não projetava a vida e os modos desta aldeia sobre a humanidade.

A falta de transcendentalismo preservava a consciência de serem a Ciência e verdade relativas, apenas possibilidades entre muitas outras. Isto eliminava o absolutismo, com seus conflitos típicos.

Predominavam a cultura e psique do pluralismo. O pensar trabalhava no sentido de compreender e melhorar os acontecimentos da vida cotidiana, ao invés de emigrar para um âmbito inacessível à experiência. Na perspectiva de Feyerabend, a sistemática desperdiça esta riqueza.

As “tradições históricas” caracterizavam-se pela presença de conceitos advindos da vida cotidiana, malandros, pragmáticos e adaptáveis à situações reais. Adaptavam-se às situações por ter o status de metamorfosibilidade. A proximidade ao material aferente permitia flexibilidade e intervenção direta.

Os deuses eram locais, oportunistas. Podiam ser substituído, como o treinador do time de futebol. Igualmente, podiam ser hibridizados, como povos e ritmos. Predominaram até o século V e VI. Tradições culturais históricas, advindas da prática direta de vida, tinham consciência da possibilidade de poder viver e ser feliz em diferentes paradigmas. Todos cientificamente produtivos.

Aos poucos, deu-se a intelectualização nos processos de estima da realidade. O ser começa a perder a simultaneidade de participante e observador. No Ocidente, este processo parece iniciar-se com Parmênides e Xenophanes.

Herodoto

No período pré-socrático, os conceitos morfológicos foram substituídos por outros abstratos, fixados exatamente em âmbitos nos quais não tinham a necessidade de interagir com a realidade.

A mais clássica de tais tradições foi o essencialismo, fundado por Platão, a partir de sua doutrina das idéias. Sugere a preponderância da teoria sobre a experiência. Aristóteles impulsionou este modo de pensar, tomando a Usia como ”primeiras premissas”. Princípio de toda comprovação.

Nos séculos IV e V a.C. a imensa quantidade é resumida em alguns conceitos genéricos. Busca-se o saber verdadeiro. Mais à frente, a concepção da idéia, abrangente, imutável e independente, forma a base dos modos racionalistas de conceber a Ciência.

Isto pressupõe algo que origina e determina uma tradição, sem, ao mesmo tempo, ser uma tradição. Este fato encontra-se na Teologia, nas religiões. (No idealismo panteísta alemão, os conceitos são investidos de autoridade transcendental divina).

Na Ciência, a racionalidade desempenha este papel. Isto relaciona-se aos elementos ontológicos, determinados por Aristóteles, para dar a medida da verdade e realidade:

Um modo particular de existência, o estado de vigília do homem sadio.

Tudo isto caracteriza o tipo da intelectualidade que não questiona as relações de conceitos com a realidade, mas suas relações recíprocas.

A Epistemologia desenvolvida no final do século XIX originou-se da concepção da Ciência como tradição histórica. Foi desenvolvida por cientistas, a partir de sua atividade prática e poiética. Assim, era pluralista.

Em contraposição, formaram-se tradições com conceitos abstratos, como sistemas inerciais, determinantes da realidade.

Lavando a louça

Todavia, no parecer de Feyerabend, conceitos são massas compositoras das mais diversas feições. A consequência epistemológica, mais direta deste fato, é a inviabilidade de um método unitário, para toda a Ciência. Mais além, a correção do mito de sua neutralidade como sistema inercial, independente de elementos históricos, culturais, etnológicos e antropológicos. Finalmente, a redescoberta do valor pragmático da diversidade e das contradições.

Alguns exemplos encontramos em Mill. Pleiteia a diversidade de pareceres, lembrando que um parecer problemático pode ser parte da verdade. E que dados decisivos, contra uma teoria, são encontrados com ajuda de alternativa contestadora.

Segundo Feyerabend, existe para toda tese argumentos que mostram serem alternativas que a contradizem igualmente aceitáveis e da mesma qualidade. Acredita que manter idéias refutadas, adicionar novas concepções não testadas, mesmo sendo absurdas, apenas para promover a diversidade, pode ser elemento decisivo ao desenvolvimento.

Newton costumava utilizar alternativas, quando a teoria ortodoxa mostrava-se abalada por refutações. Assim, para o conhecimento objetivo necessitamos de muitas idéias. E um “método” que possa lidar com este pluralismo.

Segundo Feyerabend, os melhores cientistas agem e pensam como participantes de tradição histórica. É necessário, por isso, considerar simultaneamente as perspectivas de participante e observador que o pragmatismo promove implicitamente:

Uma filosofia pragmática floresce quando leva-se em conta as tradições a serem consideradas e o desenvolvimento a ser influenciado, como construções auxiliares para um pensar ordenado e uma atividade efetiva, nunca como componentes duradouros“.

Assim, pragmatismo seria aceitar as próprias idéias como parte de uma tradição, em constante transição. Talvez, sem sentido. O pensador pragmático considera-se, simultaneamente, nas perspectivas de observador e participante.

Indios Hopi - Snake dance

Nesse aspecto, F. Wates, em seu livro The Book of the Hopi (New York, 1968, p. 48), mostra como esta cultura indígena e sua mitologia, são pragmáticas. Em ligação a isto é interessante observar a arte de mitologização dos índios brasileiros (V. D. Ribeiro, Os Índios e a Civilização).

A civilização do final da idade do bronze foi o primeiro internacionalismo. Sua visão pluralista foi reconstruída pelos sofistas. Foi a base da obra de Heródoto, chegando até o Iluminismo, em Montaigne, por exemplo. Este fato apresenta paralelos à situação brasileira.

Na EPI-I encontra-se detalhada apresentação do pluralismo relativista de Feyerabend. E suas conexões e importância para a cultura brasileira. Em certo sentido, é TROPICALISTA. Uma grande pena que ele não tenha tomado conhecimento deste movimento.

Leia mais.

Feyerabend, P, Knowledge, Science and Relativism: Philosophical Papers, Volume 3 (1999)

Feyerabend, P. Against Method: Outline of an Anarchistic Theory of Knowledge, London, 1975.

Feyerabend, P. Science in a Free Society (1978)

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