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Os EUA realizaram a reforma da civilização dando proeminência à poiesis, algo esquecida por Aristóteles e daí preterida pelas tradições intelectuais européias.

O Cerne Metafísico (Usia, Wesen), tomado como Atividade Diretora (AD) intervindo com um dos princípios civilizatórios, foi trocado pela perspectiva mais relativista e acionista (49). A Filosofia tornou-se sistema cognitivo composto e transposto existencialmente, como hipótese a ser testada em situações existenciais.

Dessa maneira, transformou-se a AD de habilidades manuais, vistas por Aristóteles como inferiores, em instrumento de emancipação de um povo colonizado, com sua elevação à Herrenvolk (V. Aristóteles, Politik). Uma filosofia de escravos tornou-se de libertação e domínio.

Tomaremos este processo como exemplo orientativo, para investigar outras possibilidades.

W. James

O momento inicial desta reforma pode ser localizado no nascimento do “pragmatismo”, em 1870, naqueles encontros quinzenais, no quarto de Peirce ou de W. James, em Harvard. Ali, fundaram o “Metaphysical Club”, ironizando no nome o que queriam superar.

O termo “pragmatismo” teve muitas conotações. Por exemplo, o Codex Justinianus fala de “sanções pragmáticas”. Os diferentes significados têm em comum a ligação à “pragma” (práxis, v. Marcuse, 1959, p. 34 e seg.).

Mais exatamente, o pragmatismo é introduzido por um escrito de W. James, no ano de 1907.

O “Metaphysical Club”, redefiniu o paradigma vigente. Exacerbando elementos e valores determinados, depurou este paradigma, sob as próprias idiossincrasias. Era inicialmente uma utopia. Todavia, as utopias americanas nasceram da abundância, em contraste à miséria e saudade das européias. Pertence ao seu ethos a crença em um contínuo e ilimitado desenvolvimento.

Assim, a representação do futuro é sempre melhor que a do passado ou presente. Uma sociedade de pioneiros tinha de acreditar não haver limites para a atividade humana transformadora. Isto não deve ser visto de modo crítico, mas como AD, advinda e produtora de autoconfiança e esperança.

Transparece, até mesmo, nos momentos românticos do “Metaphysical Club”.

Mesmo aí eram progressistas, engajados em movimentos liberais, como a emancipação das mulheres, negros e minorias oprimidas, como os italo-americanos.

Charles Ives

Os novos ares transparecem em R. W. Emerson, principalmente no ensaio “O Progresso da Cultura”. É um escrito otimista. Elogia a mistura de raças e religiões, a emancipação das mulheres, facilidades para emigrar e buscar climas e culturas adequadas à natureza particular de cada um. Mais além, advém de espírito transformista, voltado ao futuro, em oposição à timidez européia, com sua tendência conservadora (Marcuse, 1959, p 102 e seg. e p. 160).

Assim, compreende-se o impulso igualmente emancipador, ao nível epistemológico. Segundo Marcuse, um conhecedor da filosofia americana, começa com o questionamento de Peirce, em seu escrito “How to Make Our Ideas Clear,” um novo Iluminismo.

Discípulo de Peirce, John Dewey era um filósofo voltado à vida pública. Sua visão do pragmatismo, como modo de reflexão que clarifica suas consequências, afasta-se das formulações mais grosseiras. Acentua a intencionalidade do pensar, como impulso para anular o “colonialismo epistemológico”, sugerindo uma técnica implícita de redução epistemológica. Havia em Dewey uma aversão intensa contra “problemas insolúveis”. Para ele são produtos de “diseased formulations”.

Isto tem duas consequências diretas: Problemas aparecem desse modo por causa de sua formulação. Assim, exigem a técnica da correta formulação. Por outro lado, a Ciência restringe-se ao que pode processar e responder satisfatoriamente. Existem, unicamente, questões solucionáveis ou degeneradas (Marcuse, p. 131).

John Dewey

Segundo Horace M. Kallen, um amigo e discípulo de Dewey, sua filosofia vê a existência com sobriedade. Nunca é trágica. Está sempre mais próxima do sorriso que das lágrimas (Marcuse p. 135).

Semelhantes pontos de vista provocaram mudanças constitucionais na civilização ocidental. Lógica e Epistemologia foram adaptadas aos novos modos cognitivos.

A reforma americana foi silenciosa. Quase imperceptível. E, ao mesmo tempo, bombástica e explícita. Parece confirmar a teoria de Thomas Kuhn sobre a incomensurabilidade de tais processos, aqui exacerbados ao nível civilizatório.

O fato é que a hegemonia americana no Século XX não seria possível sem a intervenção do pragmatismo. O mesmo repete-se na ascensão dos chineses ou na estabilidade e elegante civilidade dos escandinavos.

Peirce

O pragmatismo depura a raiz teológica e absolutista do Ocidente. (V. Russell, 1943). Isto teve seu elemento essencial na reforma do conceito de verdade. Charles Peirce relata que o inglês Schiller definia a “verdade” como uso consciente de psicologia teleológica, na Epistemologia ou Lógica, implicando em metafísica voluntária (Citado por Peirce em 2002. p. 270 ).

Peirce via o pensar como um objetivo, uma intencionalidade. Dessa maneira, formulou o Pragmatismo e a abdução como filosofia e lógica da intencionalidade e gestualidade do pensar (Peirce, 1983. p. 169). Isto, associado ao parecer de Schiller, fornece a imagem da amplitude deste movimento.

Nesse sentido, a busca do sucesso, alegria e harmonia, pareciam alvos ingênuos, aos olhos de intelectuais europeus subvencionados. Todavia, era vital na situação da América emergente. O adequatio intellectus et res podia ser substituído por algo coerente e estrategicamente disposto no sentido de objetivos determinados.

O filósofo chinês Cai Yuanpei vê John Dewey como representante da nova civilização ocidental. Outro intelectual chinês, Hu Shi, vai mais além, acreditando que sua filosofia terminaria com as eternas querelas desde Hume e Kant. Pois, segundo ele, depois de Dewey, os debates entre empiristas e racionalistas, idealistas e materialistas perderiam o sentido (Depu, p. 41). Considera o pragmatismo um experimentalismo cognitivo que equipara a Filosofia à ciência experimental (idem).

De um modo algo ingênuo, filósofos chineses, do início do Século XX, localizaram o elemento essencial da reforma americana: um sistema cognitivo composto e transposto existencialmente como hipótese a ser testada concretamente, em situações existenciais, como já mencionados anteriormente.

O efeito da abdução é sugerir um determinado modo de agir (Peirce, 2000, p. 361). O exemplo americano é a possibilidade que nos informa sobre meios e processos de reforma, como ato de metamorfose.

Emerson

Naturalmente, tem-se de levar em consideração que a introdução de tais elementos em sistema complexo, pode, igualmente, deflagrar qualidades emergentes, imprevistas. Dessa maneira, tendências imperialistas são possíveis, a partir do cenário descrito.

Como exemplos e especializações da idéia da Civilização, as culturas ocidentais dividem-se em três tipos:

1 – Aquelas que confirmam os princípios civilizatórios aristotélicos, sendo seus defensores e propagadores mais exacerbados: Alemanha, a França;

2 – Outras culturas sentem a necessidade crítica de interferir no instrumentário civilizatório, sem, porém, modificar o sistema cognitivo. Neste grupo estão o Brasil e os EUA. Enquanto os americanos realizaram seu intento reformador pelo pragmatismo, os brasileiros o iniciaram pela “antropofagia”;

3 – Finalmente, aquelas que encontraram o equilíbrio, simultaneamente confirmando e aperfeiçoando, com resultados sociais e civilizatórios aceitáveis. São exemplos e modelos de reforma paradigmática e equilibrada. A Holanda e a Suécia são exemplos marcantes.

O primeiro grupo tem em comum o existencialismo e intelectualismo exacerbados, dominantes na Europa Central. O mundo pragmático estende-se pela Inglaterra, passando pelos países escandinavos até os EUA. Hoje, abrange, igualmente, o Japão e a China.

A América do Sul segue tateante, sob elementos existencialistas ibéricos e franceses (Peirce, 1967, p. 13 e segs.). A cultura paulista, em torno de sua imensa cidade, é um consulado do mundo pragmático.

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