A Brasilidade e a Civilização do Futuro – Extratos para o Blog

Afogados sob a carga dos milênios de caos civilizatório que concentraram-se nos séculos de nossa existência como pais, tecemos nossa Idade do Bronze, Arcaísmo, Antiguidade, Idade Media, Renascimento, Iluminismo e Modernismo ao mesmo tempo. E em formas híbridas que fogem aos parâmetros com os quais sistemas europeus de pensamento operam.

Chegamos aos anos sessenta, do sec. XX, onde cristalizava-se nosso Renascimento, em formas semelhantes aquele originalmente encontrado na Itália, depois na Holanda do goudene eeuw, a época de ouro dos holandeses, no século XVII.

Movimentos como o Cinema Novo, Bossa Nova, Tropicália e o Clube da Esquina, foram centros propulsores de aspirações civilizatórias.

São descrições do Brasil, do que ele é, e poderia ser, impulsionados pelo improvisacionismo prático e poético.

Literalmente um Iluminismo para muitos brasileiros que cresceram sob as trevas da Ditadura.

Ali, exemplificamos, como do lixo ocidental que somos, poder-se-ia criar ouro e esplendor.

E este exemplo é paradigma da cultura popular do futuro. Emancipação das artes populares.

Revolução cultural ainda não plenamente compreendida. Na Europa, ainda incompreensível.

O que resplandece na Musica de Tom Jobim? Melodias que transcorrem sob o motivische Arbeit, o desenvolvimento lógico-musical da composição, a partir da manutenção dos valores das notas, todavia sob harmonias impressionistas e melodiosidade quase luso-africana.

Algo semelhante ao que os escravos fizeram com a Língua dos portugueses. Proto exemplo do renascimento de sistemas fechados e sacrificados pela sua origem. A língua portuguesa, o Classicismo alemão.

O que representa a silábica, e melismática, paradigmática de João Gilberto, a exuberância do jovem Gil, a Lógica da personalidade de Caetano Veloso, a síntese que aparece em Chico Buarque? O mistério de Milton Nascimento…

E as promessas civilizatórias das canções de Beto Guedes, Marcio Borges e Ronaldo Bastos?

O ethos das canções de Beto Guedes, nascidas nas trevas dos anos pós-ditadura, funcionam como inspirações intensas.

Pessoas como Ronaldo Bastos e Marcio Borges encontraram a inspiração adequada. Souberam consolar e inspirar várias gerações.

Suas letras, sob a metalinguagem das vozes e entonação suave de cantores como Beto Guedes ou Lô Borges são, muitas vezes, mais civilizantes que religiões ou filosofias.

De certo modo, nós sentimos próximos a estas pessoas, mesmo sem as conhecê-las pessoalmente. Partilhamos de um mundo comum. Nos sentimos semelhantes. Confiamos nelas de um modo particular.

Por isso as tratamos como figuras próximas. Os chamamos de Chico, Caetano, Gil, Beto.

Igualmente, estas obras são os protótipos da Sociabilidade entre nós. Proto sistemas altamente eficazes de ordenação do caos. Por isso, inspiradoras.

Mas faltam os meios para extrair delas a força civilizatória que não encontramos.

Na Epistemologia Brasileira (EPI-BR) apresentamos ferramentas para preencher esta lacuna. O improvisacionismo é desenvolvido como sistema capaz de equilibrar possibilidades, necessidades e predileções, tendo a disposição e sabendo utilizar ferramentas adequadas.

Na improvisação prática e poiética há intensa e dinâmica relação entre o sistema cognitivo e a realidade trans-subjetiva. Ai, certamente encontramos unidades cognitivas capazes de diminuir a assimetria entre o pensar e a realidade. O sistema cognitivo opera como órgão regulativo. Entre abertura a realidade e necessidade de criar e manter sistemas organizados.

Em resumo, no improvisacionismo prático e poiético registra-se intensa relação entre o sistema cognitivo e a realidade.

O sistema cognitivo funciona como órgão regulativo entre a abertura a realidade e a necessidade de criação e manutenção de sistemas ordenados.

Ai, certamente são encontráveis unidades cognitivas capazes de diminuir a assimetria entre pensar e realidade.

Mas então, o que é esta brasilidade?

E como e porque esta coisa algo desconhecida que nos aparece como realidade, muitas vezes feia e desoladora, pode ser o futuro da civilização?

O Tipo dos brasileiros caracteriza-se pela capacidade inata em conter, expressar, transformar, hibridizar componentes de todos os períodos históricos, simultaneamente concentrados e comprimidos em nossa formação como nação e indivíduos.

Isto fazemos constante e inconscientemente, a todo o momento.

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Edson de Melo

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