Peirce

Imaginemos uma determinada situação existencial, uma bela lembrança, com todos os seus detalhes. Desperta sentimentos pungentes. A resolução das inúmeras e complexas informações, em uma sensação, caracteriza a abdução.

Genericamente é a síntese, em conceito, sentimento ou imagem, ressaltando o aspecto sensual do pensar, enquanto a indução ressalta um hábito.

Segundo Peirce, quando o sistema nervoso central é estimulado, simultânea e diversificadamente, resume tudo em um elemento, assim como muitos sons resumem-se no acorde. Trata-se, pois, da apreensão sintética da diversidade de dados aferentes, em juízo de experiência. Assim, percepções são conclusões, em vez de impressões.

Os dados são ordenados em categorias. Não representam meramente a soma de suas partes. Por isso, a conclusão pode ter qualidade distinta. Por exemplo, os sons ouvidos na sequência musical, resumidos em sentimentos que possibilitem a idéia para resolver problemas financeiros.

A abdução é uma conclusão da regra ao resultado. Do efeito a causa. Mais além, de fatos de um tipo a fatos de outro, completamente diferentes.

Pode ser caracterizada do modo seguinte: “Observa-se o fato inesperado C. Todavia, caso A fosse verdadeiro, C seria normal, não mais surpreendente. Dessa maneira, existe uma razão para que acreditemos que A seja verdadeiro“ (Peirce CP 5.189).

O pensar é instigado pelo fato inesperado. Não por regra ou lei conhecida. Na fase seguinte, forma a suposição hipotética: caso existisse a regra (A) determinada, o fato inesperado perderia seu caráter surpreendente.

Desse modo, na abdução é essencial a superação da surpresa inicial através da nova regra (A) que necessita ser encontrada. E dotada de certa consistência, de modo a intervir de modo ponderável, sem emprego de regras conhecidas.

Este aspecto leva a questão ao âmbito externo do processo aferente-eferente e seus diversos setores e conceitos pertinentes. Dessa maneira, fatos observados podem levar, por exemplo, ao tipo em estado de “desfeiçoamento” e etc.

De modo geral, na abdução, agimos como se tivéssemos conhecimento de todas as características e qualidades necessárias à determinação do objeto. Pois, toda conclusão é a tentativa de confirmar a presença de qualidades específicas no objeto.

Peirce quisera sensualizar às universálias. Isto aparece claramente em suas considerações sobre o Phenerom. Para ele, é o lugar e instante da realidade, composto para possibilitar a ligação e extensão a outros lugares e instantes. Suas limitações indicam âmbito delimitado da infinita continuidade do mundo dos conceitos.

O Phenerom é o comentário lógico da situação. Um protocolo que possibilita a manifestação do conteúdo do pensar à percepção, como uma estrutura básica da percepção, composta deliberada e criativamente para cumprir este objetivo. Pois, toda fórmula lógica necessita dar ao intérprete a possibilidade de atualizá-la.

De Morgan

John Venn

O Phenerom é, pois, algo como um “universo de discurso” (De Morgan, Formal Logic, 1947). Segundo Peirce, foi utilizado por John Venn, em sua “Symbolic Logic” (1883) e mais tarde por Boole que o delimitava de acordo com a necessidade (idem, p. 49).

Esta particular sensualização do abstrato foi a revolução anunciada nos escritos de Charles Peirce. Possibilita a extensão da Semiótica a um universo de discurso amplo e diversificado. Como conhecedor da Lógica, concebeu a abdução como terceira possibilidade, junto à dedução e indução.

Na história da Lógica, este modo de pensar foi inicialmente mencionado por Aristóteles, sob o nome de Epagoge (Analítica Primeira, Livro II, Cap. XXV, p. 1421). Já então, contrastava à indução. A tradução corrente ocorreu em 1597 por Julius Pacius, um professor de direito de Heildelberg (V. Adamsohn, R. 1965)

Peirce empregou o termo “abdução” pela primeira vez em 1893. A partir de 1901 o emprega regularmente. Mais tarde, quis substituí-lo por “retrodução”. Foi integrada ao métier científico, principalmente nos tempos mais modernos.

Helmut Pape

Seu aspecto criativo é a mudança de apresentação da declaração. Esta, expressa um fato inesperado. Ponto de partida de toda abdução. Segundo Helmut Pape (1994), este elemento criativo é a nova síntese de cada um dos fatos organizados em um todo novo, com nova qualidade. Daí, a irreversibilidade do processo. Não é possível encontrar seus elementos constituintes pelo caminho oposto. Assim, é mais criativo-inventivo que conclusivo.

Peirce distingue juízos de percepção, nos quais do percebido são formados conceitos da percepção mesma, vistos por ele como caso extremo de conclusão abdutiva. (CP 5.185) (21)

A abdução é o ponto de partida de sua “Logic of Discovery”. Através dela forma-se a hipótese inicial, por ser simultaneamente lógica e inventiva.

A pesquisa científica inicia pela abdução, como ponto de partida de processos cognitivos. Toda teoria científica, de validade reconhecida, teve nela seu início.

Por exemplo, o determinado fenômeno inexplicável faz-se notar como distúrbio. O cientista não encontra meios para integrá-lo à sua teoria.

Procura para então encontrar a regra que o explique satisfatoriamente. Pela verificação deve fundar nova convicção. Na visão de Peirce, a investigação cientifica é a tentativa de superar a dúvida pelo descobrimento de novas regras que promovam convicções seguras.

Após desenvolver a hipótese, pela abdução, utiliza-se a dedução para derivar uma série de consequências que serão submetidas a experimentos. Caso as predições não sejam refutadas, a hipótese confirma-se provisoriamente. Seus resultados são induzidos, no sentido da teoria, fechando o círculo.

Caso tais fatos não sejam encontrados, repete-se o processo. Uma vez desenvolvida a hipótese, é submetida a novos testes experimentais, até que os dados necessários sejam determinados. É um processo elíptico, cada vez mais utilizado e reconhecido na Ciência moderna.

Em comparação, a conclusão dedutiva tem sempre a forma: “caso… então…”. Aplica regras genéricas em casos particulares (CP 2.620). A indução parte do caso observado à regra. Caso observações particulares apareçam com frequência, formulam-se regras genéricas. Todavia, este modo de conclusão não é seguro. A abdução possui o mesmo caráter sintético da indução.

Conclui-se do resultado à regra, de algo que mostra-se conhecido a dois elementos desconhecidos. Pelo fato do elemento conhecido ser algo singular, a conclusão é hipotética. Todavia, seu campo de ação é bem maior que o da indução.

Para o processo direto da abdução, consideremos que pela sua natureza, os signos podem ser “cartografados” em diferentes âmbitos de seu rechaçamento.

Por exemplo, ainda próximos ao objeto, como EBI, desfeiçoando-se, como pegadas na memória, desindividualizando-se, em sentido à universalização, ou com status de plena universalidade. Igualmente pré-individualizando-se, ou ao nível de metamorfosibilidade, isto em sentido à individualização.

Dessa maneira, localiza-se entre a plena universalidade e individualidade. Neste processo, percebe-se como determinados setores tem pouco valor pragmático. Isto pode ser exemplificado nas afirmações “todo homem podia ser um terrorista” (universalização) e “este homem é terrorista, especializado em colocar bombas em estações de trem. Neste exato momento, tem a intenção de realizar um atentado” (individualização).

6.6 – ALGUNS TIPOS DE ABDUÇÃO.

Umberto Eco

Humberto ECO distingue quatro formas de abdução:

1 – A primeira é caracterizada pela existência de outro juízo de percepção que porta a declaração geradora do conceito genérico: â: { F(a1); F(a2)}

2 – Na segunda, existem vários juízos de percepção portando a declaração geradora do conceito genérico: â: { F(a1); F(a2);… F(an)}

3 – Na forma seguinte, não existe juízo de percepção: â: { F(a1)}

4 – Na quarta, encontra-se outro conceito a ser generalizado, através da abstração hipostática, a partir de uma abdução:

Â: { F(a1); F(a2)} e { F(a1); F(a2);… F(an)} e{ F(a1)}

Isto leva a transição hipotética para nova classe de possíveis declarações:

Ê: { G(e1); G(e2)} e { G(e1); G(e2);… G(en)} e{ G(e1) }

Paul Taghard reconhece apenas dois casos. Partindo da afirmação sobre juízo de percepção, chega-se à regra hipotética ou ao juízo de percepção hipotético.

ALGUMAS PERSPECTIVAS DA ABDUÇÃO.

Paul Thagard

1- Possibilita a formulação icônica dos modos cognitivos genéricos do homem moderno. Este aspecto tem grande importância no desenvolvimento da Informática, particularmente no campo da inteligência artificial (Paul Thagard). Assim, a capacidade de formular a abdução como Algoritmo ganha importância significativa.

2 – Explica fatos surpreendentes. Amplia e diversifica a racionalidade. Assim, vem ao encontro de necessidade premente em nosso desenvolvimento. Determinados autores ressaltam sua capacidade de resolver enigmas (Moser).

Ou sua função como lógica da interpretação. Assim, é elemento basilar e fundamental na Hermenêutica (Eco).

3 – Fornece a explicação mais provável. Pode ser desenvolvida para minimizar erros, pelo aumento da possibilidade de acertos. Todavia, mais explícita é sua capacidade de encontrar nova regra.

Pelas suas possibilidades de processamento do pensar aferente, a abdução tem grande utilidade no instrumentário, principalmente quando associada.

EXTRATO DA EPI I.

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