Conceito emblemático e orientativo da cultura brasileira recente.

Abapuru - Tarsila do Amaral

Este conceito tem intervenção diretora na sociedade brasileira moderna. Como prognose influenciou o transcorrer daquilo que prognostifica. Não necessita aval de justificações transcendentais de sua existência e veracidade.

Tarsila do Amaral

Provavelmente, Tarsila do Amaral, foi a primeira a empregar este conceito. Aboporu (“Antropófago”, em Tupi-guarani) era o título da pintura que presenteou a Oswald de Andrade. Contemplando aquela estranha figura, um homem de pés grandes fincados na terra, cabeça apoiada em uma das mãos, cercado por cenário “tropical”, o céu azul, o sol e um cacto verde, Oswald decidiu iniciar um movimento, junto com Raul Bopp (1898-1984).

O “Manifesto Antropófago”, de 1928 tornou-se o Leitmotiv, elemento propulsor da cultura brasileira do resto do século. De certo modo, articula e verbaliza o mito da originalidade e da possível vocação recivilizatória do país. Este elemento é a atividade diretora pré-simbólica nas artes e pensamento brasileiros, com interferência no Concretismo, Tropicalismo e em Milton Nascimento.

Oswald de Andrade

Oswald de Andrade concebeu a devoração como impulso reformista. Identificamos proto-atividades poiéticas antropofágicas na pintura de Tarsila do Amaral, em seu período “antropofágica” de 1928 a 1929, aproximadamente. Corresponde às obras Abaporu, O Ovo [Urutu] (1928), A Lua (1928), Floresta (1929), Sol Poente (1929), Antropofagia (1929), entre outras. O quadro A Negra (1923) é considerado precursor.

Este período caracteriza-se pela proposição do cenário de uma tradição histórica, imaginada e alegre. É proposto ad hoc como algo enraizado na cultura popular do país.

Suas dimensões relevantes:

O Ovo

O Ovo - Tarsila do Amaral

1 – Inicialmente, interessa-nos, a perspectiva culturalista, no pensamento que impulsiona o movimento. Distinguindo–se dos processos no Sturm und Drang, principalmente em Herder, que procurava fundar e justificar a unidade do povo alemão no “a priori analítico” (Volksgeist ou Volkswesen), Oswald de Andrade busca atividades poiéticas básicas.

Este é um parâmetro decisivo. O pragmatismo que renega o Wesen, (cerne metafísico) como fica claro em muitas passagens do manifesto de 1928, em troca da poiesis.

Assim, propomos a hipótese de que no modernismo brasileiro balbucia a mesma reforma civilizatória verificada nos EUA, todavia em modos construtivistas originais.

Já no manifesto da poesia pau-brasil (1924), encontram-se tendências culturalistas: “O trabalho contra o detalhe naturalista — pela síntese, contra a morbidez romântica. — pelo equilíbrio geômetra, e pelo acabamento técnico, contra a cópia, pela invenção e pela surpresa”.

A poética sugerida quer fundar-se em proto-atividades: “Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia.

2 – Sugere-se em Oswald de Andrade o pensamento transformativo, quase técnico-pragmático. A diversidade cultural do Brasil aparece como distúrbio por faltar-lhe instrumentos adequados de avaliação e transformação. Desesperada ou estrategicamente, tenta reverter esta ordem pelo conceito de antropofagia.

A Lua - Tarsila do Amaral

O ethos do movimento inspira o desenvolvimento e emancipação do Brasil, como cultura histórica, no sentido de Paul Feyerabend. Todavia não abre mão da necessidade e desejo de progredir como tradição abstrata, no paradigma vigente. Vive intensamente o desejo de ser, simultaneamente, sociedade abstrata e histórica. Nesse aspecto, articula-se o paradigma brasileiro. Isto expressa-se no brado: “Contra Goethe”. “Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas”.

Assim, caracteriza-se o espírito reformista, futurista e otimista. Percebendo em Paris, como a arte da Europa industrial era renovada pela intervenção de elementos africanos e polinésios, descobriu possibilidades latentes, no Brasil.

Como formulado, o conceito é imaginativo (a presença do objeto, no caso a pintura de Tarsila do Amaral). Este status permanece ao longo do manifesto. Todavia, expressa o desejo de ser universalizado. Nesse aspecto, é o protótipo do conceito brasileiro, pela necessidade de ser abrangente e simultaneamente local e efetivo. Exige o desenvolvimento de lógica e paradigma originais. Ânsia por reflexibilidade.

3 – Neste aspecto, pressupõe certa operacionalidade do conceito de homologia para tornar operável a universalização da antropofagia.

NOIGANDRES

4 – Em modo geral, o conceito é empregado em status universalizado, através de homologias, ressaltando suas diversas dimensões. O “cunhadismo”, assim como a liturgia cristã da “Santa Ceia,” podem ser vistos como atividades antropofágicas. Para que estas associações não transcorram sob dimensões irrelevantes, devem ser realizadas metodicamente, sob critérios e objetivos pragmáticos, com quantidade e qualidade relevantes de elementos extensivos, apreensivos e reversivos.

5 – Finalmente, o modo como este conceito foi compreendido e aplicado, ao longo de sua história recente, faz dele um “tipo ideal”, no sentido de Max Weber. Caracteriza-se por apreender perspectivas da realidade e ligar a outros elementos, em uma forma inusitada.

Tem função rastreadora-diagnóstica importante pelo fato de exagerar contornos da realidade, e assim torná-los mais percebíveis. Pode ser utilizado de modo crítico e (ou) criativo. Presta-se, igualmente, ao uso contra-indutivo. Assim, tem significação epistemológica.

Sua estrutura é idêntica ao conceito de “disponibilidade”. É uma idealização criativa-imaginativa, utópica, como o próprio autor indica. Pelo seu status, sugere possibilidades realizáveis.

A formulação operacionável da Antropofagia, melhor formulada como “heterofagia” (Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago), como princípio civilizatório e epistemológico exige:

1 – A teoria genérica que mostre a viabilidade de tal projeto, ao mesmo tempo orientando o desenvolvimento de processos correspondentes. Isto, elevaria o status de hipótese ad hoch ao de hipótese plausível. A discussão centraliza-se na disposição de meios e processos para intervir.

2 – Processos de aplicação em diferentes âmbitos científicos ou diretamente poiéticas. Em sentido culturalista, seu desenvolvimento, a partir de conceitos atividades antropofágicas básicas, até a formulação como regra técnica.

3 – A formulação descritiva e prescritiva.

4 – Delimitação do seu nível de individualização, adequado à aplicação. Igualmente, discutir suas possibilidades heurísticas

 

TROPICALIA

Clube da Esquina

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