Conceitos, como empregamos neste trabalho, são dotados de intensa extensionalidade funcional. A identidade de intencionalidade e extensionalidade, no sentido de Frege, não é relevante.

Como são formados a partir da evidência de elementos são hipóstases da realidade com o objetivo de orientar práticas cognitivas e kinestéticas, sob parâmetros da dimensão trans-subjetiva. E descobrir, pela atividade produtiva, novos parâmetros. Desse modo, é bem próximo do conceito de prática e de sua realização kinestética.

Prática designa a atividade humana, compreendida como relação ativa com o meio-ambiente. Na filosofia de Aristóteles, distingue-se da poiésis, por não ter objetivo implícito. No marxismo, aparece como Leitbegriff da crítica social. Opõe-se, igualmente, a concepção idealista. Fichte, por exemplo, vê o mundo como resultado da atividade do sujeito individual, enquanto Marx o compreende como resultado de prática coletiva, pelo trabalho. (V. Mittelstraß, Livro III, p. 336).

John Dewey

A filosofia da prática acolhe diferentes tendências pragmáticas. Por exemplo, a filosofia de G. H. Mead ou John Dewey, além da análise existencial de M. Heidegger. Seu elemento comum é a concepção de atividade humana como centro de seus esforços, em alusão a concepção marxista.

Este aspecto tenta superar o subjetivismo de colocações logocêntricas de um Eu transcendental. E dar base normativa às reflexões sobre fundamentos éticos e sociais.

Este conceito de práticas aproxima-se daquele de Lebenswelt, como encontrado na fenomenologia de Husserl. Nesse sentido, segundo Dussel, o Lebenswelt é constituído pela interferência das ações de uma Época.

Possui três dimensões básicas: As ações do indivíduo, sua interferência com ações de outros, formando o Lebenswelt e o sistema de extensões das ações.

E. Dussel

Pois, cada uma implica em relações do sujeito com ações ou consequências de ações de outras pessoas, ou vice-versa. Além do mais, outras pessoas fazem parte de ações coletivas ou comunitárias, de alguma forma interferindo em pressupostos para a ação do sujeito.

Este conceito de prática define uma estrutura complexa, no momento do ato, da totalidade e das relações. Seu objetivo é a aproximação à realidade, em sua dupla significação, infra e transmundana.

De certo modo, misturam-se nas filosofias da prática elementos dos conceitos de prática aristotélicos e marxistas. (V. idem, p. 337) Em sentido mais amplo, definiremos, neste trabalho, o processo perceptivo como proto-prática, habituada e uniformizada no desenvolvimento filogenético.

U. Maturana

Esta perspectiva é uma consequência do processo aferente-eferente de  Herbert Witzenmann. Parece ser justificada pelo construtivismo radical, significativo no discurso epistemológico dos últimos anos. Iniciado por Glaserfeld, Watzlawick, Foerster, Maturana, entre outros, ressalta o fato do sujeito pensante apreender o mundo em modo interativo e adaptativo.

Atualmente, nas discussões sobre a Teoria dos Sistemas, a cognição é aceita como modelamento da realidade, em processo dinâmico, orientado pela necessidade de dar conta de problemas reais do existir. Distancia-se daquele modelo que a vê como espelhamento de uma realidade precedentemente pronta e acabada.

Esta ação precede toda reflexão teórica. Como nota Janich (1995), nosso relacionamento com a Natureza é caracterizado pela atividade prática. Isto possibilita a reconstrução de disciplinas e seus conhecimentos, a partir de práticas do Lebenswelt, com o objetivo de melhor cumprir suas exigências (Janich, idem). Igualmente Husserl vê o mundo formado pela interferência de consciências.

A partir disto vamos descrever a dimensão trans-subjetiva da realidade como produto da interferência de práticas perceptivas, poiéticas e comunicativas.

Neste trabalho, vamos definir práticas como atividades habituadas, normalizadas e uniformizadas, cuja origem e desenvolvimento correspondem a processos compositores e aferente-eferente. Genericamente, estruturas percebidas trans-subjetivamente, como fome, frio etc. exigem uma idéia inicial que anule sua intervenção na percepção, ou o fenômeno originador.

M. Heidegger

A partir desta idéia inicial utiliza-se o metier disponível. Ou é alargado, com o desenvolvimento de ferramentas ou material suplementar, mais adequados. Em dedução, confrontação e aperfeiçoamento, o artefato procurado é composto. Caso este processo seja bem sucedido, é canonizado em cerimônias, bulas, manuais etc. Com isso, garante-se a uniformidade e independência da reprodução.

Invariavelmente uma AD específica assegura a inter ou transsubjetividade do processo. A habituação consolida o status transubjetivo. Dessa maneira, ressalta-se a importância da AD na transformação do status.

Com isso, práticas cumprem sua função principal de dar conta de situações reais da existência. Por exemplo, práticas de pesar, medir, plantar, orientar-se, defender, pensar, argumentar, confeccionar, conservar etc.

Por sua vez, a trans-subjetividade resulta da origem de práticas, como atividades pragmáticas, desenvolvidas como resposta a exigências do meio ambiente natural e cultural. Resolvem problemas que afetam radicalmente a vida das populações. Ou asseguram seu desenvolvimento e sobrevivência. Mais além, sua disseminação, mais ou menos normalizada, promove a validade em âmbito temporal-espacial considerável.

G. H. Mead

A complexidade da realidade reside no fato das ações constituírem um sistema de interferências de inúmeros componentes, em analogia ao timbre complexo da orquestra sinfônica.

Este conceito de prática intenta um acesso a realidade pela perspectiva acionista, a partir da relação do sujeito com os acontecimentos. O primado da práxis, tomada pragmaticamente, refere-se precisamente ao momento transubjetivo de relações com o meio-ambiente.

O prático, como dimensão morfológica, é escolhido como via de acesso à realidade do conhecimento, uma vez que o conhecimento é, invariavelmente, a experiência do sujeito, a partir de suas relações com a realidade objetiva.

Edson de Melo (atualizado em agosto de 2011)
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