( Para informação global e orientativa do leitor)

CORRENTES EPISTEMOLOGICAS

É bastante difícil apresentar uma visão geral das correntes epistemológicas. Seguem dados orientativos.

O EMPIRISMO LÓGICO (Bacon, Locke, Hume, Mill) toma o processo científico como confrontação sistemática de LÓGICA e EXPERIÊNCIA. Tendo a OBSERVAÇÃO como ponto de partida, não reconhece lógicas e epistemologias que não partam dela.

Mill

Baseia-se na IDENTIDADE DE TEORIA E DADOS. Sua falta compromete a teoria. Este elemento é comum a todo empirismo. Registrando repetição e regularidade na aparição de fenômenos, formula este fato como Lei Natural, em processo lógico metódico (Steiner, 1985, p. 454). O pensar processa relações entre fenômenos através de comparação, analogias, diferenças e relações (idem. p. 456). Todavia, não aceita que o pensar e o mundo percebido tenham a mesma natureza. Sua lógica é a INDUÇÃO PELA ELIMINAÇÃO, tentando corrigir o pensar meramente acumulativo de Aristóteles. Tem como instrumento o MÉTODO DE INVESTIGAÇÃO DE RELAÇÕES CAUSAIS, um sistema de processos indutivos, desenvolvido por Bacon, mais tarde aperfeiçoado por Hume e Mill. É composto por diferentes processos.

Procura comprovar hipóteses em experimentos e observações de seus resultados. Assim, testa a capacidade explicativa de hipóteses. Por partir da realidade como dada, reflete os modos de pensar da vida cotidiana, na sociedade moderna, daí seu intenso senso comum. Este aspecto fez dele um elemento importante na Epistemologia moderna.

Auguste Comte

No POSITIVISMO de A. Comte (1798-1857) a Ciência tem a significação de uma conexão de fenômenos observáveis, renunciando ao estudo e conhecimento de suas causas. Para tal, as condições de investigação são definidas com exatidão. Ocupa-se com os fenômenos diretos, como apresentam-se, apenas levando em consideração conceitos que tenham correspondentes na observação. Por tomar como metafísica o estudo de fenômenos não observáveis diretamente, não aceita, por exemplo, a teoria atômica.

Isto caracteriza uma filosofia de orientação ferrenhamente empirista. Caso a teoria possa ser referenciada à juízos de percepção é tomada literalmente, como verdadeira ou falsa (E. du Bois-Raymond, E. Mach). De certo modo reduz a Epistemologia à Lógica. Isto é praticado intensamente, como análise linguística (Neopositivismo).

Popper

No MODERNO EMPIRISMO LÓGICO (Popper, Hempel, Carnap, Feigl, Nagel, Lakatos), contrapondo-se ao neopositivismo, Popper viu sua posição como racionalismo crítico. Como a indução é problemática, pela inviabilidade de examinar todos os casos possíveis, por mais que se experimente, sugere, em lugar da atitude verificativa, um processo para demonstrar erros e fraquezas da teoria. Assim, formula o processo científico como tentativa de refutação (Falsificacionismo). Parte do princípio de que apenas a hipótese refutável é científica. Refutável significa a possibilidade de demonstrar erros, em afirmação ou proposição falsa, por exemplo, através de experimento.

Dessa maneira, a Ciência é vista como processo metódico e seletivo no qual hipóteses e teorias são generalizadas e refinadas. Depois, atacadas, com ajuda de experimentos. Descarta-se, provisoriamente, as hipóteses que não resistem aos testes, preferindo aquelas de maior “teor de veracidade”. As fraquezas descobertas podem ser reparadas, melhoradas ou substituídas, “aproximando-se da verdade”.

Bas van Fraassen

Lakatos

O chamado falsificacionismo ingênuo de Popper é desenvolvido, possibilitando o falsificacionismo sofisticado de I. Lakatos, em sua “Methodology of Scientific Research Programm” (MSRP). A modificação essencial é o afastamento da proibição de “imunização” pela introdução de hipóteses ad-hoc (Popper).

Sob condições determinadas, a teoria pode ser protegida por um cinturão de hipóteses ad-hoc, para salvaguardar as convicções que constituem seu cerne. Em casos nos quais a teoria é refutada apenas são modificados elementos que não pertencem a este cerne. Aqueles centrais, suas convicções básicas, apenas serão abandonadas caso o programa de pesquisas desenvolva-se de modo degenerativo e tenha de ser substituído por outro.

Assim, a teoria não tem de ser substituída por outra mais forte, caso seja contestada em experimentos ou resultados empíricos. Esta proposta de Lakatos não foi plenamente integrada ao moderno racionalismo empírico.

W. Stegmuller

O ESTRUTURALISMO (J. Sneed, W. Stegmüller, C. U. Moulines) foi iniciado por J. D. Sneed ao tentar integrar o racionalismo crítico e o positivismo lógico, mais tarde desenvolvido e propagado por W. Stegmüller e C. Ulises Moulines (1946). Mais além, procura associar as duas escolas com o “Historismo”. Um aspecto interessante é o fato de levar em conta interrelações de teorias. Podem coexistir e explicar os mesmos fatos, sem que sejam idênticas. Entre tais possibilidades o REDUCIONISMO desempenha um papel importante na unidade da Ciência. Igualmente, vê as teorias científicas como construções ou criações culturais (C. U. Moulines).

Para o REALISMO ESTRUTURAL (John Worrall), a Ciência descreve a realidade com fidelidade. A estrutura de hipóteses, e leis científicas, são genuínas descrições do mundo e as fórmulas matemáticas da hipótese representam a verdadeira ordem da Natureza (John Worrall, “Structural Realism: the Best of Both Worlds?” 1989). Caso a teoria seja correta, este status advém mais da ordem da natureza.

Nancy Cartwright

O REALISMO DE ENTIDADES (Ian Hacking, Nancy Cartwright), vê teorias e leis naturais como ferramentas para descrever a realidade. (Ian Hacking, Representing and Intervening, 1983 e Nancy Cartwright, How the Laws of Physics Lie, 1983). Não necessitam ser verdadeiras. Apenas entidades fundamentais, como partículas, energia etc. são reais e desempenham um papel fundamental na existência dos fenômenos. Por isso, exclusivamente as entidades fundamentais nos experimentos tem o status de realidade.

O CONVENCIONALISMO (Henri Poincaré, Ernst Mach) toma a Ciência como “convenção útil”. Não pode ter a pretensão de ser verdadeira. É uma descrição pragmática do mundo, dependente de elementos ontológicos e psicológicos. Fatos científicos, aparentemente objetivos, são advindos da poiética da sociedade e dependentes de condições sociais nos laboratórios e instituições científicas (Bruno Latour e Karin Knorr-Cetina). Recomenda que os conceitos da teoria científica não sejam vistos como necessariamente existentes, podendo ser abstrações, para tecer uma explicação. Determinados elementos axiomáticos da teoria não podem ser refutados pelo experimento (Henri Poincaré, Science and Hypothesis, 1902 e Hans Reichenbach, The Philosophy of Space and Time, 1958).

O REALISMO CONSTRUTIVO, de Friedrich Wallner, distingue a realidade manifesta perante a consciência humana, a realidade construída, com seus âmbitos microcósmicos e a realidade de vida, sistema de regras e convicções específicas a cada cultura. Seu objetivo é a caracterização do círculo de objetos, métier e métodos, na pesquisa, para a compreensão da Ciência. Todavia, mostra-se consciente das dificuldades em delimitar e precisar o métier científico. Mais além, aceita a necessidade e possibilidade de conjunto de práticas, para constituir um sentido homogêneo. Sugere o alheamento como método para o autoconhecimento.

J. Mittelstrass

O CONSTRUTIVISMO METÓDICO (P. Lorenzen, W. Kamlah, J. Mittelstraß, K. Lorenz, P. Janich) procura reconstruir a linguagem científica a partir de seu estágio pré-científico. Nesse sentido, a Lógica deve ser reconstruída como disciplina de argumentação dialógica. O objetivo é o desenvolvimento de racionalidade técnica e política. Seu elemento central é a construção de conceitos verificáveis que possam ser ensinados e aprendidos por todos. Isto constitui a base de toda teoria que pretende ativar uma prática. Tem aspecto antielitista e democrático.

Kuhn

O HISTORISMUS de T. Kuhn, Polanyi, Merton revolucionou a Epistemologia ao introduzir elementos históricos, sociológicos e culturais, como fatores integrantes e determinantes da pesquisa científica. Tem seu elemento diretor no conceito de PARADIGMA, o elemento compositor da ciencialidade, tentando justificá-lo pela observação de sua PRESENÇA e MUDANÇA, ao longo da História.

Um elemento basilar é o conceito de incomensurabilidade de S. Kuhn. O paradigma pode ser caracterizado como elemento eferente diretivo, organizador dos modos científicos, e, até mesmo, dos modos de percepção dos indivíduos envolvidos. Pode ser total ou parcialmente incomensurável. Conceitos de outros paradigmas não possuem a mesma significação o que impossibilita a comparação ou unificação. Cada um deles funciona como um universo fechado.

Segundo Kuhn, a ciência normal segue um paradigma e não testa seus limites. Caso surjam contradições, é ampliado, permanecendo intacto. Em casos extremos, inicia-se o processo crítico, uma crise. Dessa maneira, distingue-se a ciência ordinária da revolucionária. Caso o novo paradigma abranja os novos elementos, acontece a revolução científica. Todavia, o novo paradigma não impõe-se idealisticamente, pela força de argumentos lógicos, embora seja sustentado por tais argumentos. É produto histórico-ontológico-sociológico.

O Coerentismo, Ceticismo e Fundamentalismo surgiram com a dificuldade em justificar teorias científicas por si mesmas, exclusivamente com elementos aceitos como “científicos” (Kuhn). A estrutura das revoluções científicas são descritivas. Concentra-se em conceitos genéricos. E denota um aspecto histórico e sociológico. Assim, o Historismus tem ambições metateóricas e motiva o pesquisador a levar em consideração elementos históricos e ontológicos. Tais conceitos são ganhos por um processo de pensar contra-indutivo ou retrodutivo, pela identificação da rede de elementos implícitos na poiética científica. Assim, os modos de observação denunciam o paradigma. Igualmente, intervém um ethos, invariavelmente. Por isso, teorias testadas não podem ser tomadas independentemente de teorias que justificam a observação ou experimento. A concepção aceita do que é ou não “científico” intervém regularmente (Kuhn).

Outras correntes são o REALISMO HIPOTÉTICO (Lorenz, Campbel, Planck, Popper ).

Planck

O realismo característica das ciências exatas (Lorenz, 1973. p. 15) mostrando-se extremamente afinado com o senso comum. (Lorenz, 1973. p. 9 – 32). É aprendido nos livros escolares, dos professores etc. Impera na sociedade, nos livros científicos populares, revistas etc. Pela sua influência positivista foi habituada na visão do mundo das pessoas. Foi a posição de grande parte dos pensadores europeus, sendo assim um sistema referencial de grande abrangência. Adequa-se extraordinariamente à aplicação construtivista.a

Putnam

O REALISMO CIENTÍFICO (Putnam, Russel, Boyd, Newton-Smith, A. N. Whitehead) parte do fenômeno, como apresenta-se á percepção (Putnam, H.: Meaning and the Moral Sciences, p 20 ). Para os realistas as relações entre fenômenos são fatos cognitivos independentes do sujeito. A auto-observação não pode ser tomada como entidade. Pois, quando pensamos, o ato não desempenha um papel essencial. Dessa maneira, o pensar é considerado e estudado independentemente do sujeito pensante.

Disciplinas como a Mecânica Quântica, que utilizam modelos matemáticos abstratos, são consideradas pouco realistas. Em contrapartida, as que estudam fenômenos naturais organizados, como a Biologia Molecular, são normalmente vistas como realistas. Esta discrepância torna difícil estabelecer um critério uniforme, para toda a Ciência, segundo Giere.

M.Bunge considera a Ciência falibilista. O conhecimento é temporário e incerto. Todavia a realidade existe e é objetiva. O realismo avalia o progresso da Ciência pela sua aproximação à verdade. Contrapondo-se ao empirismo que busca novas concordâncias com a teoria, tenta conhecer melhor as causas e efeitos. Desse modo, considera-se mais coerente com os conhecimentos científicos atuais.

Nesta escola, as teorias científicas são tomadas literalmente, podendo ser verdadeiras ou falsas. Dois de seus elementos mais importantes são o pragmaticismo e o holismo de Quine (Putnam, Philosophical Papers, Vol I, p. 61). O realismo crítico vê-se como novo Iluminismo. Por isso, combate o irracionalismos e o racionalismo reducionista.

Quine

O HOLISMO de W. V. Quine considera o sistema como unidade holística, o conjunto de convicções partilhadas pela comunidade de cientistas. Em seu exemplo mais conhecido, argumenta que a observação da rota do planeta Vênus justifica-se pelo fato de ser coerente com nossas convicções e conhecimentos sobre ótica, manejo de telescópios e movimentos de planetas. Como perceber é atividade cognitiva integral, a observação da rota do planeta une uma série de “fatores”. Noções de ótica, manejo dos instrumentos, a técnica de dispor o telescópio, conhecimentos e experiência com a mecânica dos corpos celestes etc. Para contornar esta dificuldade, desenvolveu-se o Fundacionismo, no qual determinadas declarações não necessitam de justificação. Por exemplo, indução e dedução são formas diferentes de fundacionismo. Pois, os dados da observação não são justificados, como fundamentos derivados da percepção.

Indução e dedução têm a propriedade de explicar fatos recorrendo a outras declarações científicas. Ambos têm de contornar os problemas da validade de critérios, e daí, o problema da regressão infinita. O holismo não distingue o analítico do sintético. Toda declaração depende de elementos lingüísticos e empíricos. Meramente a proporção de tais elementos determina a diferença. O cientista pode ver a declaração refutada como incorreta ou correta, de acordo com disposição do experimento. Pode ser que ele não adéqua-se à teoria. Assim, pode reformular seus conceitos e práticas, considerar a Lógica e a Matemática inadequadas, reformulando-as a partir de sua teoria. O holismo das declarações, na teoria, torna difícil determinar qual delas deve ser abandonada. O “coerentismo” aconselha considerar a possibilidade da declaração ser mantida por fazer parte de sistema coerente.

O holismo mostra-se adequado em âmbitos onde é imprescindível levar em consideração a maior quantidade possível de elementos, com suas inter-relações. Isto sugere, por exemplo, sua aplicação em associação aos processos desenvolvidos por Goethe, e empregados na Agricultura Biodinâmica.

O PLURALISMO EPISTEMOLÓGICO de Paul Feyerabend não elimina de antemão determinadas sugestões ou possibilidades, por contradizerem métodos dogmáticos canonizados. Tudo pode ajudar e ser utilizado, caso ajude na solução de problemas.

Wittgenstein

Finalmente a FILOSOFIA ANALÍTICA, como corrente filosófica advinda do Empirismo Lógico, desempenha importante papel na Epistemologia moderna. Seus nomes mais representativos são os do Círculo de Viena, R. Carnap, O. Neurath, H. Hahn, W. van Quine. Wolfgang Stegmüller, H. Putnam e representantes da lógica matemática, como B. Russel, G. Frege, contribuíram intensamente em seu desenvolvimento. No início do século XX, o Círculo de Viena impulsionou a Epistemologia, tendo o empirismo e o logicismo como elementos componentes. O estudo da Lógica e da Lingüística, particularmente por L. Wittgenstein (1889-1951), desempenhou um papel central. A FA postulava a necessidade de reduzir a Ciência a dados observáveis. Conceitos teóricos apenas têm significação quando traduzidos em verbalizações de dados observáveis. Teorias são tomadas literalmente. São verdadeiras ou falsas, em linguagem referente a dados observáveis. A FA tinha orientação verificativa. Todavia com os resultados da Física Moderna esta posição tornou-se insustentável, sendo substituído pela confrontação de proposição e observação.

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Edson de Melo

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