03 – LIMITES E JUSTIFICAÇÃO.

A Epistemologia é invariavelmente uma criação. Invenção coerente e funcional. Trata-se de um “Urstiftung”, na terminologia de E. Husserl (1952, p. 269). É, assim, algo que pretende ser novo ou novidade, introduzido no Lebenswelt (idem, 1954, p. 48-54, 123-126, 130-132). Necessita certa habituação para poder integrar-se ao pensar e agir costumeiros. Mais além, é necessariamente uma abstração, em linguagem artificial, na qual os fenômenos são traduzidos e processados, de modo determinado.

Para Husserl, o mundo em que vivemos é formado por redes de significações que envolvem a consciência. Trazem implícitas, em potência, a possibilidade de novas consciências. Isto ele denomina “horizonte”. O entretecimento de muitos horizontes constitui o Lebenswelt. Em sua visão, isto possibilita a Ciência.

Caso acontecimentos, objeto ou criação, introduzidos no Lebenswelt, não mostrem-se integrados a rede de significações e relações dos horizontes, ganham o status de Urstiftung. Ele é, pois, inicialmente, destituído de “horizonte”(1962, p. 195). Pode ser uma teoria científica, a obra artística ou máquina. Sua característica central é a autônoma durabilidade. Uma vez fundado, permanece à disposição. Isto possibilita sua “habituação” com a correspondente integração ao Lebenswelt, para tornar-se “horizonte”.

Markus Käbisch (2002) vê na consciência de tais processos três estruturas básicas que aparecem, implícita ou explicitamente, ao longo da obra de Husserl: Kinestesia, intersubjetividade e certeza universal do ser (universal Seinsgewissenheit, idem p. 31). Mostram-se presentes e constituem toda consciência apreendida fenomenologicamente.

Desse modo, são necessariamente elementos constituintes de toda ciência. Husserl critica o realismo por este não querer investigar as categorias de uma consciência transcendental que garantiria o a priori do Lebenswelt, unificante e fundamental à Ciência. Isto corresponde à terceira das estruturas básicas, identificadas por Käbisch. Ela precederia e daria validade transcendental às outras. Todavia, desse modo, a corporalidade presente em toda consciência, perde a autonomia.

Torna-se dependente de um a priori idealístico, bem na tradição kantiana. Nesse aspecto, Kant tinha em visão o sujeito conhecedor. Assim, teceu uma concepção mentalística do à priori, a partir da perspectiva das experiências deste sujeito (Hartmann/Janich, 2000, p. 202).

Em contrapartida, a corporalidade possibilita a relação com o Lebenswelt pela atividade. Mais além, a intersubjetividade é garantida, prelinguisticamente, pelo simples estar no mundo.

Segundo J. Mittelstrass, não é possível desenvolver uma Epistemologia sob tais princípios idealísticos. Seria um projeto por demais ambicioso. Assim, propõe a redução do conceito de Lebenswelt. Sugere um “transcendental – a priori -pragmático”, em vez do “transcendental – a priori – idealístico” de Husserl, eliminando a terceira estrutura básica.

Dessa maneira, a fundamentação ou validade científica não é mais dependente deste âmbito da consciência, mas da atividade prática. A relação básica com o mundo torna-se “acionista.” Funda-se em “atividade fabricante” (Herstellungshandlung) que tem a experiência experimental como precondição metódica para sua possibilidade. No apriori kantiano esta relação é “egológica” (Hartmann/Janich, 2000, p. 202).

Tal redução consiste na focalização do interesse epistemológico em âmbito do Lebenswelt que pode ser fundamentado por atividade científico-metódica. Mais precisamente, nos âmbitos alcançados e verificados pelas estruturas básicas da consciência, intersubjetiva e kinestética. Prescinde do à priori absolutista. Não necessita justificar-se ante um conceito transcendental de Lebenswelt (Käbisch, p. 41).

Por conta disto, uma cadeia argumentativa de declarações científicas pode ser interrompida em âmbito seguro (P. Jannich, P. Kambartel, F. Mittelstrass, 1974, p. 34-42). Isto coloca à disposição um repertório de atividades elementares com o qual podemos estilizar o saber técnico.

Tais atividades são, segundo Mittelstrass, a PRÁTICA DA DIFERENCIAÇÃO, como expressão ou meio para a intersubjetividade, e a PRÁTICA DA FABRICAÇÃO que corresponde à estrutura kinestética. Formam juntas, o “a priori-pragmático”. A primeira pode ser reconstruída em diálogos pedagógicos. Efetivam a diferenciação pela prática da imitação e reprodução normalizada (Käbisch, p. 41).

O saber que vem a ser colocado à disposição consiste em “primado lógico da predicação elementar”. Pois, todo saber é comunicado por predicações. E consiste na formação de predicações, com declarações elementares correspondentes (idem).

Por sua vez, a PRÁTICA DA FABRICAÇÂO (Herstellungspraxis) possibilita o desenvolvimento de teorias empíricas. Pois, a simples capacidade de fabricação é à base das ciências experimentais, principalmente a Física e a Química. Na perspectiva do Culturalismo Metódico, constitui toda a consciência e ciência modernas. Observando tais procedimentos, percebe-se como o Lebenswelt é reduzido com objetivo determinado. Esta redução é processo epistemológico criativo-pragmático.

Uma invenção artístico-científica.

Assim, o pragmatismo-instrumentalista, é inicialmente, um Urstiftung. Sua visão da Ciência torna-se possível por um ato pragmático. Este é o caráter implicitamente instrumentalista da Ciência, intensamente presente nos dias atuais.

Por conta disto, este trabalho:

1 – Propõe-se como Urstiftung. Todavia não exige absoluta originalidade ou validade. Trata-se de um desenvolvimento adaptativo, com muitas referências, horizontes. E, ao mesmo tempo, como iguais perspectivas carentes de habituação, para ficarmos na terminologia de Husserl.

2 – Baseia-se nos conceitos de KINESTÉTICA e INTERSUBJETIVIDADE de Husserl, como pré-estruturas e fundamentos do Lebenswelt. Os dois conceitos serão dispostos para uso pragmático-instrumentalista. Isto tem suas consequências na tentativa de aproximação da criação artística da científica, registrando elementos kinestéticos poiéticos comuns, o que lhes provê da semelhança e intersubjetividade necessárias.

3 – A perspectiva básica será ativa-compositora. Isto possibilita a intersubjetividade. Pois, a capacidade kinestética de realização indica que tudo pode ser compreensível pela ação, como comunicação kinestética (O ser e estar no mundo trazem implícitos uma certa porção de intersubjetividade, no “consenso” que portamos sobre grande parte dos elementos do Lebenswelt – juízos de percepção como formas, cores etc. Mais além, a atividade poiética adiciona mais uma porção de intersubjetividade ao ser-estar no mundo).

4 – Os conceitos empregados serão definidos com o objetivo de aproximar-se da intersubjetividade comunicativa. Seu referencial é o status de “intérprete lógico”, no sentido de Charles Sanders Peirce (Veja 6). A predicação pretende vir ao encontro do caráter intersubjetivo kinestético, em suas manifestações no âmbito verbal.

5 – O processo argumentativo justificante, além dos exemplos sugeridos, pretende promover a “habituação”. Assim, a Epistemologia, como Urstiftung, pode ser utilizada e integrada ao Lebenswelt.

6 – Finalmente, pela abrangência dos temas enfocados, não tem a pretensão de esgotar suas possibilidades. Pretende ser um enfoque inicial, orientador, incentivando futuras pesquisas.

 

Forçosamente, baseia-se nas seguintes hipóteses:

1 – Lógica e Epistemologia são relativas e pluralistas. O acesso ao conhecimento científico, com a tecnologia daí derivada, pode ser trilhado por meios e processos variados.

2 – Tais meios e processos podem ser adequados e advindos dos modos cognitivos de um povo, considerando elementos cognitivos que apresenta como característicos, atuantes, efetivos e (ou) prediletos. Desse modo, uma visão etno-epistemológica.

3 – Uma moderna epistemologia pode ser composta pela associação integrativa-incrementativa de diversas inteligências. É irrelevante sua proveniência, atualidade ou campo de atividade. Podem ser conflitantes ou contraditórias. Importante é a associação de forças cognitivas.

4 – Os fenômenos trazem e sugerem lógica e epistemologia, implicitamente. Dessa maneira, seguindo o pensamento de Nancy Cartright (1983), a ordem parte deles para a teoria cientifica. Não o oposto.

5 – A consciência, ativa no processo compositor-criativo, pode ser estendida aos processos científicos de pesquisa, invenção e inovação. Podem contribuir, efetivamente, para o desenvolvimento de técnica e know-how. Desse modo, sendo estendida ao âmbito de objetos cognitivos, normalmente cabentes à Epistemologia, constitui modelo e exemplo orientativos.

6 – A poiética particular dos brasileiros permanece como distúrbio por faltar-lhe sentido e objetivos sancionados.

7 – Nos acontecimentos intervêm forças que uma vez ganhando objetivos pragmáticos e meios adequados de transformação, tornam-se instrumentos e processos para o melhoramento da vida dos homens. Por exemplo, o comportamento de animais, pessoas de toda proveniência. Ou, a alegria constante de uma comunidade desfavorecida.

Por outro lado, uma Epistemologia implica na presença constante de um

intencionamento (3). Aparece em tudo que processa como dimensão virtual constante. É um “sistema de coordenadas,” orientativo e regulativo, Pode ser identificado, transformado e melhorado.

O intento determina os modos da atividade e o uso correspondente do sistema cognitivo. O que é relevado ou excluído. É a fonte de onde advêm os conceitos desenvolvidos. Conceitos, procedimentos e resultados necessitam levar este aspecto em consideração.

Podem relacionar-se com o intento encravado para conceber e praticar a Ciência em modos rechaçante-substitutivos ou extensivo-integrativos. Por outro lado, o que foi rechaçado pode ganhar importância insuspeitada nos processos epistemológicos. O grau de consciência e aplicação deste fato determina a força reformadora de uma Epistemologia.

Por conta disto, este trabalho pretende desenvolver-se sob intento extensivo-substitutivo, intervindo pela consciência e constante presença, em diversas perspectivas.

Genericamente, comporá um tipo inspirado naquele musical e abrangente, sob o qual Heitor Villa-Lobos compôs seus Choros, principalmente o de N° 11. Em modo semelhante, aplicado por Gilberto Freyre, em “Casa Grande & Senzala”, permite a utilização de cada informação, aparentemente sem significado. Possibilita a abdução diversificada e perspectivística (V. Herrenhäuser und Sklaven Hütte, Ed. DTV, 1990).

Edson de Melo

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