0 – O PROGRAMA DE UMA EPISTEMOLOGIA PRAGMÁTICA-INSTRUMENTALISTA.

De modo geral o instrumentalismo vê a Ciência como resultado das interações humanas com o meio ambiente, natural e cultural, com o objetivo de desenvolver orientação teórica e prática. O interesse da razão prática é reduzido à instrumentalização da razão.

Por sua vez, isto é realizado por uma racionalidade particular, desenvolvida e aplicada no sentido de identificar e desenvolver meios efetivos para a realização de objetivos.

Este processo transcorre sem a ambição de refletir ou fomentar a verdade, em sentido idealista. Por isso, evitaremos este conceito, pelo seu caráter problemático. Será pressuposto no sentido da teoria consensual da verdade de Peirce: A declaração p é verdadeira, quando todo participante de uma comunidade comunicativa, sob condições ideais, concordar com p.

O instrumentalismo tem caráter heurístico. Procura dispor teorias científicas com a finalidade de resolver problemas (Laudan, 1977, p. 223). Muitos instrumentalistas consideram teorias convenções operacionais, úteis que servem à organização sistemática de observações e viabilizam prognósticos. Importantes são suas consequências empíricas. A verificação pela observação e experimentação. Nesse sentido, teorias são como uma black box. Podem ser alimentáveis com dados observáveis. Ou para derivar predições a serem testadas.

Genericamente, a Ciência explica observações, deduzindo de postulados que não necessitam ser verdadeiros, mas empiricamente comprováveis.

Declarações advindas de observações (O-statements) têm seu sentido garantido e determinado por condições inter-subjetivas, pré-linguísticas e observáveis. Por exemplo, uma declaração como “A casa é vermelha,” contém dois juízos de percepção, “casa” e “vermelha”, de validade intersubjetiva. Nesse sentido, o objetivo explícito é aproximar T-statements, ou seja, declarações teóricas, do status de O-statements. Van Fraassen (1941) considera, até mesmo, o observável mais importante que o real.

Como o objetivo da Ciência é a adequação empírica, teorias são válidas na medida em que cumprem este requisito. Para tal, a observação pode lançar mão de instrumentos.

O instrumentalismo adéqua-se à âmbitos científicos onde necessita-se soluções rápidas e efetivas. Para tal, investiga a razão do sucesso de escolas epistemológicas, teorias científicas e sistemas filosóficos. Procura meios para integrá-los e aperfeiçoar seu conteúdo heurístico. Neste aspecto, ressalta-se seu aspecto integrativo, algo antropofágico.

Em seu aspecto mais técnico, intenciona a interpretação pragmática de leis relevantes, trocando seu caráter descritivo pelo prescritivo. Trata-se da formulação do saber expresso, normalmente, em leis da Física, no sentido da utilização para ações técnicas e resolução de problemas. Da relação causal A leva a B, à relação prescritiva B per A (Käbisch, p. 170 e Kornwachs, 1996, p. 30).

Nesse caso, pelo fato de toda lei ser uma aproximação, quaisquer lei que explique o fenômeno, com o mesmo grau de aproximação, pode pleitear o direito de ser “verdadeira”. Fala-se, então de “leis aceitáveis” (Duhem, 1906 e 1908 ). Os conceitos mencionados, em teorias, cumprem a função de estruturar e classificar o conjunto de leis de experimentos empíricos. São, tão somente, elementos auxiliares. Por exemplo, o fato de uma teoria falar em átomos ou partículas, não implica em sua existência de fato. Em resumo, conceitos teóricos são convenções úteis (van Fraassen,1980).

No instrumentalismo a Ciência transcorre sob concepção hierárquica. Os objetivos determinam os métodos. Estes, os resultados. Um modelo mais interessante sugere a intervenção holística de cada elemento nos outros, de modo que justificações possam fluir de todos os sentidos. Com isso, o desenvolvimento da Ciência prescinde de objetivos fixos. Torna-se mais flexível. Pode mudar seus objetivos e métodos (H. Laudan, 1941). Neste trabalho, intencionaremos este aspecto.

O instrumentalismo contrasta, às vezes, com o realismo científico pelo fato de não ver teorias como algo especial, mais ou menos verdadeiro. Muitas vezes, instrumentalistas e pragmaticistas são considerados relativistas. Alguns são adeptos do realismo objetivo de Popper.

Definiremos o pragmatismo instrumentalista como procedimento filosófico que

reconstrói e resgata o aspecto poiético da Ciência, com o objetivo de promover o conhecimento capaz de ser aplicado na prática. Isto transcorre, através da hibridação de métodos lógico-matemáticos e experimentais. Mais além, articula seu papel no contexto da condução de vida individual e social.

Edson de Melo

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