Uma Filosofia ou Epistemologia, normalmente, transcorre em abstrações para a formação de conceitos genéricos e regulativos. Mais alem, tenta explicar e regular relações entre conceitos e percepções. Isto caracteriza sua orientação mais teórica.

Caso ofereça sugestões para um modo especifico de agir, passa a ter ambições e orientação práticas. Este é, por exemplo, o caso da filosofia de F. Nietzsche, entre outras.

Ars combinatória

O aspecto poiético consiste no fato do pensar ser apoiado por artefatos que possibilitam inusitadas observações. Igualmente, apoio ao processamento. Por exemplo, o microscópio. Mais recentemente o computador. Ou sistemas heurísticos, como a Ars Combinatória de Lulli, ou a TRIZ de G. Altshuller.

O exemplo básico e paradigmático da interferência da poiésis foi o telescópio. Aperfeiçoado por Galileu Galilei, possibilitou-lhe desferir a revolução heliocêntrica que lhe custou muitos problemas com a Inquisição. Com ajuda da extensão da percepção, relata a humanidade fatos nunca antes conhecidos, em suas Sidereus Nuncius (Mensagem das Estrelas.).

Igualmente, o pensar poiético pode transcorrer em sentido individualizante, ordenado e adequado a construção de tais artefatos. Por exemplo, o pensar de engenheiros, arquitetos, designers etc.

A contribuição de Galileu Galilei funda o paradigma da Ciência, como conhecemos. A unidade e sistemática de teoria, prática e poiésis. E a confrontação sistemática de lógica e experimento, como definiu J. Monod (V. O Acaso e a Necessidade).

Isto nos levou a emancipação da metafísica. Pois, caso consideremos a realidade através de conceitos quantitativos, em relação funcional-matemática recíproca, o mundo transforma-se em sistema democrático de entidades, isentas de caráter indicativo metafísico.

A Ciência desenvolveu-se sob o paradigma iniciado pelo mestre florentino. E apresenta seu clímax na Física e Astronomia modernas. Por exemplo, nas publicações de S. Hawking. E na Epistemologia coerente com este desenvolvimento, em autores como Quine, Hempel ou Stegmüller, entre outros.

A concepção básica das EPIs segue este paradigma. Busca a moderna integração de teoria, pratica e poiésis, evitando a metafísica e pretensões absolutistas. Seguindo a tradição da Filosofia Analítica, de origem anglo-saxônica, procura normalizar e simplificar o uso de conceitos e formulações de sentenças, entre outros aspectos.

Dai as frases curtas, diretas, como meio de tecer contornos claros as unidades cognitivas propostas. Mais alem, a preocupação em utilizar conceitos em status inter ou trans-subjetivo. Ou seja, definidos e aceitos pela maioria da comunidade comunicativa, como sugere J. Habermas.

Seu aspecto particular é o fato de levar em consideração a realidade brasileira, como pré-requisito de todo pensamento tecido no país. Ou seja, conjunto de dados e leis, acontecimentos, também históricos, e objetos inter e trans-subjetivos, como precondições de todo pensar, abstrair e adequar. Assim, cristalizam-se condições similares aquelas encontradas por Galileu. E outras idiossincráticas, originais, especificamente brasileiras.

A EPI-I inicia pelo aspecto teórico, com intencionamento implicitamente poiético, como finalidade e resultado de toda teorização.

computador

Inicialmente é disposto um sistema de conceitos e processos, de diferentes filosofias, como instrumentário. O instrumentário pode ser comparado a caixa de ferramentas do artesão. De acordo com as necessidades de seu trabalho e objetivos, utiliza ferramentas e maquinas correspondentes. Por exemplo, para medir, furar, serrar, juntar etc.

De acordo com os objetivos do projeto, o instrumentário necessitava de doutrina que descrevesse detalhadamente as relações entre o pensar e os dados dos sentidos. O processo aferente-eferente, como proposto por Herbert Witzenmann, nos pareceu o mais indicado (V. Witzenmann, Sinn und Sein).

Todavia, pelo seu caráter psicologista, introspectivo e idealista, levou-nos a necessidade de operar redução epistemológica, para adequá-lo ao senso comum. Para tal, eliminamos componentes transcendentais-absolutistas, como, por exemplo, a necessidade de evidencia baseada em intuição no mundo das idéias, aos modos platônicos. Por conseguinte, a necessidade de conceitos analíticos, destituídos de relação a dados da realidade trans-subjetiva.

Outra desvantagem era a sua complexidade. Infelizmente ainda não nos foi possível contornar satisfatoriamente esta deficiência. O projeto de transformação das três EPIs em manual prático, para aplicação direta, devera resolver este problema.

Alem disto, introduzimos a descrição da realidade, desenvolvida pelo matemático e filosofo inglês A. N. Whitehead. Sendo extremamente realista, mas igualmente com aspirações metafísicas, os conceitos e processos de Whitehead, integrados ao processo aferente-eferente de Witzenmann, compõem ferramenta abrangente.

O procedimento introspectivo de Witzenmann é complementada pela relacionalidade extensional de Whitehead. Dessa maneira, operamos a incrementação recíproca. E aproximação ao senso comum.

Galileu

O objetivo final deste processamento foi refinar e diversificar a capacidade de observar e processar acontecimentos. Dessa maneira, um telescópio virtual, em analogia a Galileu. Assim, temos acesso a novas perspectivas da realidade.

Os dois sistemas e sua integração, todavia, necessitavam de maior relação com a realidade. Pois, têm sentido explicitamente epistemologizante. Ou seja, compõem descrições teóricas e abrangentes da realidade.

Nesse sentido, a extensionalidade de Whitehead é acentuada pela introdução da Semiótica de C. S. Peirce. Seu pragmaticismo implícito permite enfocar acontecimentos da realidade cotidiana, sem recorrer a elementos históricos, ontológicos ou psicológicos. São processado como apresentam-se a percepção, independentemente do sujeito percebedor. Isto é resumido na definição de todo objeto ou acontecimento como signo.

Por outro lado, a interferência do sistema Witzenmann-Whitehead na Semiótica de Peirce possibilita-lhe considerar a Metafísica como recurso produtivo. Este aspecto seria de grande importância, pelo fato dos modos cognitivos dos brasileiros conterem, frequentemente, componentes irracionalistas.

Mais alem, propomos um sistema para o exercício e desenvolvimento da capacidade de abstração, utilizando a audição musical. E processando suas dimensões sob operação denominada Transladação.

Esta ferramenta, necessária a aplicação da Progressão Criativa de Whitehead, possibilita/nos, igualmente vivenciar algumas das propostas de Herbert Witzenmann. Pois, desenvolve a introspecção, pré-requisito a compreensão e aplicação do processo aferente-eferente.

Todavia, faltaria um sistema que acentuasse o aspecto da criatividade. Nesse sentido, a sistematização do processo da composição musical, como realizada por Pierre Boulez, apresenta-se como modelo de formação criativa e macroscopica da realidade.

Assim, introduzimos este processo no instrumentário. Explica e dá sentido ao processo aferente-eferente. Simultaneamente é sofisticado e justificado. Generalizado e integrado a Aferência-Eferência e a concepção da Progressão Criativa, transforma-se em ferramenta excepcional.

Com isto ganhamos um sistema complexo e diversificado, capaz de formar, descrever e processar a realidade, em diversas perspectivas. Macro e microscópicas. Isto conclui o aspecto teórico do instrumentário.

Sua transposição prática-existencial, transcorre pela introdução de dois componentes.

1 – A Analise Morfológica

2 – Sistemática Competência Existencial.

O primeiro sugere-se como sistema acessível para organizar e tratar de problemas diversificados. De certa forma, era o modo corrente de pensar, até o século XIX. Foi, por exemplo, muito utilizado na Astronomia por F. Zwicky e na Botȃnica por W. von Goethe.

Sua concepção implícita da realidade como sistema de interferência de parâmetros, ou dimensões, permite a formulação orientativa de projetos criativos e problemas. Sua integração as Redes de Bayer (Baysian Network) e outros sistemas mais sofisticados, possibilita processamento quantitativo-estatístico.

Na EPI II é proposto, por exemplo, uma técnica simples e efetiva de comunicação, baseada no pensar morfológico.

A Sistemática Competência Existencial, como seu titulo programático, foi esboçada, igualmente, na EPI-II. Propõe princípios para um existencialismo pragmático, como novo paradigma e substituto do existencialismo-romântico. Ressalta o aspecto da ação prática, no mundo cotidiano, para dar conta as necessidades prementes da vida em sociedade.

Finalmente, o aspecto poiético orienta-se nas contribuições do CULTURALISMO METÓDICO.

La Bilancetta

Em escritos, como La Bilancetta (A Balança), Galileu não limitava-se a descrição de teorias, mesmo que fundamentadas matematicamente. Incitava o leitor, democrática e interativamente, a participação ativa. Descrevia seus experimentos. E colocava a disposição informações detalhadas para a construção dos artefatos necessários. Seu pensar transcorria em unidade de teoria e prática, tendo a poiésis como centro através do qual transcorria.

Este modo de pensar tem no Culturalismo Metódico seu desenvolvimento mais recente. Certamente foi influenciado pela tradição da Engenharia Mecânica e Filosofia Técnica na Alemanha. São fatores de sucesso e sustentabilidade do padrão de vida da população. E Engenharia Mecânica tem longa tradição no país. É responsável por parte considerável de seu PIB, pelas inúmeras exportações no setor. Recentemente, as encomendas, principalmente de grandes nações emergentes, como China e Brasil, cresceram consideravelmente.

Esta disciplina recente, desenvolvida por Peter Janich e colaboradores, reconstrói disciplinas cientificas, partindo da concepção de que toda ciência desenvolveu-se de proto-práticas artesanais.

Assim, conscientiza-nos do papel da poiésis no pensar. Ao mesmo tempo, desenvolve e propõe conjunto de conceitos e práticas competentes para a produção de artefatos industriais, construção de casas etc.

Com este instrumentário lançamos um olhar por sobre o Brasil. Sua gente, cultura, processos cognitivos, possibilidades, realizações e problemas. Foi concebido para poder lidar com a complexidade desta nação.

O objetivo central seria dar nova significação a aparentes distúrbios do modo de vida da população. Conferindo-lhes sentido e utilidade, transformar-se-iam em recursos inestimáveis. Esta é uma das teses centrais das EPIs.

Para tal investigamos dois aspectos básicos:

Microscópio

1 – Possibilidade de existência, identificação, formulação e disposição de conceitos brasileiros em sistema.

2 – Identificação, coleta e transformação de recursos do modo de viver dos brasileiros, para transposições biônicas.

O trabalho preliminar consistiu no estudo e formulação dos modos cognitivos dos brasileiros. Para tal utilizamos o método de G. Altshuller, coletando e observando grande quantidade de acontecimentos da cultura nacional. E resumindo-os em princípios diretores. Em processo análogo, Altshuller desenvolveu sua famosa TRIZ, responsável por grande numero de patentes, na Engenharia Mecânica, em todo o mundo.

Em nosso caso, foram observadas milhares de canções representativas da MPB. Isto corresponde à perspectiva de observador. O principio diretor foi identificado como especifico pensar imaginativo.

Simultaneamente foram compostas milhares de canções, para introduzir a perspectiva de participante. Pressupomos hipoteticamente que nelas os modos cognitivos correspondentes são exercidos regular e intensamente, com componentes representativos e excepcionais.

A isto, somaram-se práticas culturais da população. Danças, culinária, modos de sofrer, festejar, brigar etc.

O instrumentário é utilizado como sistema de rastreamento, organização e significação de tais acontecimentos, com o objetivo de desenvolver novas entidades que possam ser assimiladas como ferramentas neste sistema.

Este processamento foi visto como canibalismo epistemológico, inspirando-se na concepção de Mario de Andrade. Possibilitou o desenvolvimento de sistema de conceitos especificamente brasileiros. Este aspecto foi desenvolvido na segunda parte da EPI I.

Todavia, surgem questões sobre o que seria o especificamente brasileiro? Ou, se a concepção do conceito, certamente influenciado por sua origem platônico-aristotélica, seria coerente a realidade brasileira.

Tais questões nos levaram a desenvolver um instrumentário especifico, para o tratamento de acontecimentos brasileiros. Isto desenvolveu-se como o esboço da teoria instrumentalista do Brasil (TIB). Constitui o capitulo final da EPI I. Nela são apresentadas ferramentas para a identificação de signos brasileiros, sua transformação e hibridação com outros. Mais alem, a mudança de visão do conceito brasileiro para o acontecimento brasileiro.

A partir de tais pesquisas chegamos a conclusão que o conceito, em sentido especificamente brasileiro seria melhor formulado e compreendido como acontecimento, formado por signos, vistos, igualmente, como acontecimentos. Nesse sentido, poder-se-ia utilizar, pragmaticamente, a distinção feita por Whitehead entre organismos, objetos e acontecimentos.

Assim, genericamente, poder-se-ia ver conceitos idéias, sentenças etc. como acontecimentos, raramente despidos de componentes kinestéticos, ou seja, movimentos, emoções, sensações, devido a sensualidade de nossa natureza.

Isto permite-nos traçar uma continuidade entre os aspectos teóricos, práticos e poiéticos. Igualmente as diferentes fases, status, e hibridações de tais perspectivas. Esta concepção nos pareceu, então, mais adequada a descrição e processamento da realidade brasileira.

Computador

A partir deste desenvolvimento iniciamos pesquisas para cumprir a meta seguinte. Ou seja, colocar a disposição elementos epistemológicos para a transformação de componentes idiossincrático do modo de vida dos brasileiros, considerados como distúrbios, em recursos, para modernas tecnologias.

Esta Biônica existencial foi sugerida na EPI I. Todavia, necessita ser desenvolvida plenamente.

Na EPI II, os acontecimentos, estocasticamente reconhecidos como brasileiros, são formulados como princípios inventivos. Isto, associado as ferramentas de processamento propostas, constitui um sistema brasileiro de pensar criativa-imaginativamente.

Este desenvolvimento de sistemas, em analogia a construção de artefatos, como resultados posteriores de longo e sistemático processo de transformação de conceitos e concepções filosóficas, é visto, nas EPIs como Tecnologia Filosófica. No caso, com interesses criativos. Podem ser, igualmente, heurísticos.

Filosofias são integradas como sistemas cognitivos, para maior complexidade, segurança, objetividade e velocidade no pensar. Isto é apoiado pelas categorias Intuição, Inspiração e Imaginação, Metafísicas e Kinestéticas, propostas na EPI III.

Mais alem, a EPI III unifica, mais efetivamente, os aspectos práticos e poiéticos, desenvolvendo o existencialismo pragmático. Isto acontece, inicialmente pela definição diferenciadora de passado, presente e futuro, em diversas camadas.

Posteriormente, contando com tecnologias adequadas, propomos relações bilaterais incrementativas. Presente, passado e futuro interligam-se, diversificadamente. Por exemplo, o passado interfere no futuro para desenvolver o presente. Ou, possibilidades futuras são levadas a transformar acontecimentos do passado.

O objetivo é intensificar e estender o agora, o momento e acontecimento atual. Ao par disto, o instrumentário da EPI I é, igualmente, sintetizado em categorias, do âmbito metafísico da Intuição ate seu extremo na intuição kinestética.

Esta transposição do aspecto mais teórico da EPI em artefatos cognitivos poiéticos cumprira a função de feiçoar o presente, a partir de recursos do passado e futuro. Dessa maneira tem a dupla denominação de sistemática criação do futuro e do futuro a sistemática criação.

Era típico na época anterior de Galileu a mistura de empiria e metafísica. Isto ainda encontramos na sociedade brasileira, em diversas variações. Esta é uma perspectiva de sua complexidade. Aparece, inicialmente, como distúrbio, anacronismo.

A transformação deste distúrbio nos levou a hipótese da presença latente de recursos para a superação da dicotomia entre a ciência moderna e a metafísica, presente desde o século XVII, com reflexos em todos os setores da vida pratica.

A EPI III sugere resolução preliminar deste conflito pela utilização da ciência quantitativa e da metafísica como recursos, democrática e pluralisticamente equivalentes. Evita pretensões absolutistas de exigir de uma ou de outra o papel diretor e fonte exclusiva de verdades absolutas e transcendentais.

Brasileiros e a Poiética

O eixo, através do qual esta solução torna-se viável é a concepção do Pensador Antropofágico Informatizado. O protótipo do cidadão brasileiro do futuro. Seu progressismo e curiosidade tecnológica, associados a sanha integrativa de nossa cultura, permite administrar produtivamente seus extremos modernistas, medievais, arcaicos. Este homem de duas cabeças é descrito na EPI II como solução, quando romântica-anacronicamente é visto como problema.

Nesse sentido, o modo como os brasileiros administram esta dualidade é proto-modelo. Será transposto e formulado epistemológica-poiética e praticamente na EPI III. Assim, temos a contribuição da cultura brasileira a resolução de problemas prementes na historia da ciência e constituição da civilização.

Com isso alcançaríamos o objetivo central das EPIs. Transformar em recursos inusitados aquilo normalmente identificado nos brasileiros como distúrbio a ser sanado. E isto sendo aplicado para a recivilização do Ocidente.