02 – SOLUÇÃO DE DIFICULDADES INICIAIS

A proposição de uma Epistemologia pressupõe objetos e objetivos. Mais além, caso pretenda ser uma pesquisa básica, exige justificação de seus passos iniciais, métodos e processos. Instala-se, imediatamente, o perigo de um círculo vicioso.

A solução destas dificuldades é alcançada pela conscientização do papel da linguagem verbal. Inicialmente, a Epistemologia, seus objetos e objetivos, são verbalizações (Grunwald, 2000, p. 27). Seu questionamento, em sentido explicativo, pressupõe um aspecto determinado pelo interesse de conhecimento (Erkenntnisinteresse). É importante operar este aspecto conscientemente e precisá-lo.

Por outro lado, questões são pragmaticamente relevantes à medida que pressupõem a existência de seus objetos. Esta tese proposta por Parmênides é aqui formulada em modos pragmáticos (Russell, 1970, p. 71). Isto expressa-se na necessidade de compreensão, comunicação e operacionalidade dos objetos de questionamentos.

Interessante seria que isto transcorresse em nível intersubjetivo e prelínguistico, aceito pela maioria dos membros de uma comunidade, em seu senso comum, e sob condições dialógicas ideais, como sugere Jürgen Harbermas em sua “Theorie des komunikativen Handeln”.

Seguindo esta linha de pensamento:

Uma declaração é considerada justificada quando resiste a toda argumentação racional, sendo levada à concordância, sob processo de justificação. É considerada construtiva quando não apresenta fissuras na argumentação. Kamlach, Lorenzen und Habermas tentaram estabelecer critérios para o processo de argumentação, ao nível dialógico (V. Mittelstraß, 1995, Vol. I p. 272).

Nesse sentido, a racionalidade designa a capacidade de desenvolver procedimentos para o resgate da validade, em modo discursivo. Posteriormente, segui-los e tê-los à disposição. Nesse sentido, desenvolvem-se diversas formas de racionalidade; reativa, produtiva, regulativa, verificativa, discursiva, pré-discursiva, comunicativa, estratégica e decisiva, (Mittestraß, Vol.III, p. 468 e segs). Tais dimensões são aplicadas conscientemente, de acordo com o questionamento.

Normalmente, a Epistemologia e a Filosofia, não examinam intensamente o ponto de transição do Lebenswelt à Ciência. Aquilo que encontra-se no Lebenswelt, como capacidade de ação, individual, coletiva e comunicativa-verbal, não é analisado, “reconstruído” e colocado à disposição dos interessados, com ferramentas de uma Teoria da Ação apropriada. Igualmente, o problema raramente é formulado em sequência construtiva, com terminologia definida, orientada no sentido de objetivos determinados.

Importante seria formular este aspecto, estratégica e inteligentemente, escolhendo meios para a realização de objetivos. Isto caracteriza a Racionalidade Meio-Objetivo (Zweck-Mittel-Rationalität), um termo cunhado por M. Weber.

Diante de tudo isso, o Construtivismo Metódico propõe a solução de “problemas iniciais”, de fundamentação e justificação de disciplinas, através de sua redução às ações poiéticas-práticas, em seu estágio mais elementar, ainda não diferenciadas. Ações poiéticas são aquelas dispostas e organizadas em cadeia realizativa. A prática designa ações, propriamente ditas.

Assim o processo inicia com a observação de atividades artesanais simples, encontradas na população. Posteriormente, reconstroe-se, gradualmente, seu desenvolvimento em etapas: formulação linguística, organização metódica, teorização e generalização.

Dessa maneira, desenvolve-se uma argumentação científica, sem pretensões absolutas. Sua prioridade é colocar à disposição meios suficientes para a consecução de objetivos justificados e sancionados.

Assim, como auxílio, para superar as dificuldades iniciais, utilizaremos estilizações da práxis do Lebenswelt. Isto terá maior relevância na Parte II, quando desenvolveremos conceitos brasileiros, a partir de atividades artesanais de composição musical e na Parte V.

Pelo falibilismo implícito, aos modos de C. S. Peirce, este trabalho reserva-se o direito de errar, revidar-se, desenvolver ou excluir elementos que não mostrem-se produtivos ou aplicáveis. Não tem a finalidade de ser “verdadeiro” ou original. Nem mesmo contestar ou revidar outras propostas. Seu objetivo é colocar á disposição dos interessados ferramentas úteis, mesmo não sendo definitivas ou infalíveis.

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Edson de Melo

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